/

Kausben: herança de um imigrante fugido da guerra, sua resiliência e dedicação

Quem se lembra do saudoso e simpático Antonio, retrato da Kausben?

Comece a ler

Iniciada pela venda de parafusos e há 49 anos conhecida pela abrangência das mercadorias comercializadas, a Kausben se destaca por suas miudezas. Ambiente onde nunca houve gerente, a empresa é conceituada pelo apreço às pessoas, cujo valor, embora único, é sempre tido como inestimável.

Nome patronímico de origem árabe, a partícula “ben” significa filho e, em Kausben, denomina um empreendimento criado e desenvolvido por George Kauss, de 66 anos. Já próximo de celebrar meio século de fundação, o negócio se revela uma representação da vida do comerciante no Brasil que, sozinho, fundou e triunfou com a própria loja.

Foto: Arquivo/Kausben

Sírio, George veio para Petrópolis aos 12 anos de idade fugido da guerra. Acompanhado de um tio, um irmão e um primo, precisou crescer afastado dos pais e de seus outros cinco irmãos. Desde cedo, aprendeu a ser resiliente. Tanto que, ainda rapaz, deu início à chamada Copafer: Comércio de Parafusos e Ferramentas. 

Foto: Arquivo/Kausben

Fundada na Avenida Sete de Abril, onde se mantém até hoje em outro endereço com o nome de Kausben, a loja em muito se assemelha às lutas do imigrante. Resultado de seus esforços, o negócio teve como ponto de partida um número limitado de recursos que, dada sua competência, cresceu em mercadorias oferecidas, parceiros e amigos.

Sob quatro pilares, o de George, seu irmão Michel, sua esposa Norma e seu cunhado Antônio – este já falecido – a Kausben, pouco a pouco, passou a retratar características do quarteto. Com a visão de George, a competência de Michel, a organização de Norma e a simpatia de Antônio, a firma se consolidou como referência em seu segmento de atuação.

Na imagem, George e Antonio. Foto: Arquivo/Kausben

“Quando se abre um negócio é como se você fosse plantar uma árvore. Eu quero que aquilo cresça, dê frutos, seja útil e produtiva”, narra George que, em quase 50 anos da Kausben, tem escrito uma história de sucesso não simplesmente pelo reconhecimento de clientes, mas sobretudo pelo retorno e crescimento da equipe com que ele colabora.

Inspiração para muitos, tanto que mesmo os ex-funcionários que hoje são donos de seus próprios negócios continuam a se referir a ele como patrão, o comerciante ensina pela forma com que transforma as dificuldades em aprendizado e pela maneira com que faz do que poderia ser um fardo, motivo para se alegrar pelo caminho até aqui trilhado.

“Aqui é um começo e eu dou muita preferência a quem nunca trabalhou antes. Sou muito feliz quando a pessoa trabalhou comigo e sai para uma coisa melhor”. Composta por 30 colaboradores, a equipe é constantemente motivada pelo imigrante que, em resposta à forma como foi acolhido e dada uma nova chance, se esforça em fazer o mesmo com eles.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Singular em mercadorias e tratamento

Com mais de 49 mil mercadorias cadastradas e clientes em todo o Brasil, a Kausben é singular pelos produtos que oferece e pelo tratamento cultivado. Firmado na gratidão aos colaboradores que movimentam a empresa, o negócio tem em seu quadro de funcionários uma equipe de longa data.

Foto: Arquivo/Kausben

Guilherme da Silveira, de 37 anos, é um deles. A princípio ajudante de carpinteiro na instalação de uma janela na casa de George, o petropolitano teve seu potencial notado pelo imigrante, que o convidou a trabalhar na loja. Contratado há 17 anos, Guilherme atua na função de eletromecânico há 12 deles e, graças à oportunidade, coleciona conquistas.

“Cheguei sem experiência nenhuma e hoje tenho uma profissão graças a ele. Entrei aos 20 e estou com 37. Desde então comprei um terreno, consegui minha casa própria, paguei meu carro”. Como ele, quem também tem a Kausben como única assinatura na carteira de trabalho é o balconista Nilton Siqueira, que, com 33 anos de idade, há 13 é funcionário.

Descrito como um ambiente de aquisição de conhecimento, é a Kausben também a responsável por abrir portas. “A gente aprende sobre as vendas, manutenção e também conhece os materiais comercializados. Isso abre muitos campos”, pontua Nilton que, além de aprendizado, faz amizade com os fregueses, que até para aniversários o chamam.

Na manutenção da tradição

Para entender a essência da Kausben é preciso conhecer as relações que a compõem, a começar pelo relacionamento entre George e sua esposa Norma. Parceiros desde a escola, os dois se conheceram depois do teste de admissão para o Colégio São Judas Tadeu quando, após obter a 2ª melhor colocação na prova, ele quis conhecer a detentora do 1º lugar. 

Foto: Arquivo pessoal família Kauss

De amigos a namorados, eles se casaram e tiveram na Kausben uma das grandes representações de seu amor e união. Consolidado graças aos esforços conjuntos dos dois, o sucesso do negócio também se deve ao companheirismo de Michel, irmão de George, e do falecido Antônio: irmão de Norma e símbolo da loja de tão conhecido e querido que era.

Perpetuado em família, o empreendimento que, inclusive, chegou a contar com filiais em Corrêas e no Centro, tem contado com a colaboração de diferentes gerações da família na manutenção da tradição. Sobrinha de Norma e de George, Roberta Rosa Gomes, de 42 anos, foi frequentadora assídua da loja na infância e hoje é parte de seu dia a dia.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Admitida na época em que teve sua filha, Roberta começou a trabalhar de casa – período em que estabelecia contato com os clientes. Vinte anos se passaram, e não apenas ela continua a colaborar com o legado familiar no setor financeiro, como agora também sua filha Giovana é parte efetiva do quadro de funcionários. 

“É muito bom estar junto. Temos uma amizade muito forte e trabalhamos em parceria. Meu pai Roberto trabalhou um tempo aqui no estoque e meu irmão Gustavo nas compras”. Muitas vezes confundida como a filha dos fundadores, Roberta, na verdade, é prima de Camila Kauss, de 37 anos. Ela sim filha de George e Norma e braço direito dos pais.

Na imagem, Camila acompanhada do pai, George. Foto: Petrópolis Sob Lentes

Há 10 anos na empresa, Camila expressa sua satisfação em contribuir com o negócio da família. Graduada em Comércio Internacional, ela chegou a receber uma oferta de trabalho no exterior, mas optou por permanecer em Petrópolis e realizar seu sonho de longa data: o de atuar ao lado do pai e, a exemplo dos pais, fazer a diferença com seu dinamismo.

Com o pai responsável por lhe nortear, é sua mãe quem a fornece a energia necessária para empreender. Juntos, os três têm mantido a empresa no presente, sem esquecer do passado. “Eles começaram do nada, então minha atuação é para dar continuidade ao todo trabalho e esforço que meus pais e meus tios tiveram desde o início”, exprime.

Exemplo para os demais, Camila fez questão de começar no estoque, como fazem todos os iniciantes. De lá foi para o caixa, balcão e, embora hoje trabalhe no escritório, se faz presente onde seja necessária. Envolvimento que teve início ainda na infância, quando brincava de “lojinha” no estabelecimento, Camila se sente realizada no referido ambiente.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

“Nossa brincadeira era passar cartão, aceitar cheque, vender e guardar. Hoje os filhos da Roberta e da minha irmã Laila fazem a mesma coisa”. Ensinada que é mais fácil se adaptar ao melhor do que ao pior, Camila tem na atmosfera de respeito aos funcionários construída pelo pai sua maior herança.

“O lema dele é não deixar os funcionários na mão. Para mim é o maior legado que ele deixa: a forma como trata as pessoas que trabalham com a gente”. Filha de Kauss, a Kausben se firma como retrato de um empreendedor nato, sua família, colaboradores e a preocupação em acolher e bem se relacionar com os demais e o mundo.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

(Matéria produzida a convite da CDL Petrópolis e veiculada em 03/07/2022)

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

5 Comments

  1. Não tenho palavras pra agradecer essa família linda que amoooo de coração família Kausben meu marido Cosme Siqueira de Amorim (taia) não era e nem nunca foi considerado um motorista da empresa Kausben e sim sempre foi como uma pessoa da família e anos se passaram hoje meu marido não está mais entre nós. Mais meu amor pela família Kausben e imenso gratidão por ter vcs em minha vida não tenho palavras pra agradecer vcs por chorar o meu choro e sorrir meu sorriso .Sucesso pra vcs (família Kausben)

  2. Me emocionei lendo essa matéria! Que família querida é essa! Todos!! Têm uma índole singular e uma simpatia que contagia! Merecedores de todo o sucesso! Eu, sendo filha tb de comerciantes que vieram ao Brasil tão novos e começando do zero, me orgulho de histórias como essa do Sr George!!! Adooooro toda a família ! E também sou mto grata pela amizade sincera! Bjsss em todos! Deus Continue Abençoando!

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.