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Relojoaria Ângelo e a manutenção das engrenagens e ponteiros em Petrópolis

Os primeiros registros do envolvimento da família com o ofício remetem ainda ao século XIX, com a matriarca dos Ângelo

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Situada numa das vias mais movimentadas do Centro de Petrópolis, de tanto que trabalha na manutenção das engrenagens, a impressão que se tem é de que a Relojoaria Ângelo se tornou capaz, também, de desacelerar os ponteiros. Num ambiente em que o tempo parece ter sido interrompido, a tradição e o apreço pelo ofício também são mantidos.

O expediente mal tem início quando os primeiros clientes se posicionam na calçada à espera da abertura das portas de aço. Sólido, o material que as reveste é semelhante à persistência dos Ângelo num ofício que há mais de quatro gerações norteia os caminhos trilhados pela família.

Fotos: Petrópolis Sob Lentes

Conta o relojoeiro Lino Ângelo Moreira Pinto Soares, de 77 anos, que o gosto pela atividade corre nas veias desde os tempos de sua bisavó: descoberta recentemente feita por ele e que somente fez aumentar, ainda mais, seu carinho pela arte de consertar relógios – prática a que se dedica desde os 12 anos de idade.

Reprodução: Petrópolis Sob Lentes

“Eu acho que isso já está no sangue. Meu avô era relojoeiro, meu tio, meu pai, meu irmão Alberto e, gozado, a avó do meu avô era relojoeira. Isso em 1870, 1880”. Onde os dias são vividos ora no silêncio absoluto, ora numa badalada de sinfonias, a relojoaria traz a tradição de uma vida e a manutenção da cidade que acolheu a família de portugueses.

Natural de Paços de Brandão, ele retribui o carinho com que foi recebidos no reparo das máquinas e na manutenção das engrenagens: tanto as particulares, quanto as públicas, como é o caso das torres com relógio da antiga cocheira da Casa de Petrópolis – a Casa dos Sete Erros, da Igreja do Sagrado, da Igreja Luterana e tantas outras.

E se às vezes a sensação, mesmo para quem aprendeu a decifrar os relógios, é a de ver o tempo escapar pelas mãos, dependendo do pedido do cliente a sensação é a de contribuir para a fusão dele. É o caso de uma solicitação especial feita pela cliente Astrid Justen Tunnicliff na época em que se casou com Michael Tunnicliff.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

“Pedi que as minhas alianças fossem feitas a partir das alianças dos meus avós”, conta.

Onde ouro e tempo se fundem, a relojoaria, depois de alguns poucos minutos de contemplação, se torna um lugar tão mágico quanto os momentos que protagoniza a partir das joias que comercializa e abriga.

Verdadeiros tesouros, pode-se dizer que o maior valor deles está nas histórias que os compõem e que com eles se entrelaçam, como é o caso, por exemplo, da presença da filha do senhor Lino e sobrinha do senhor Alberto na loja. Aos 51 anos, é Vera Soares Bordallo a responsável por gerenciar as questões administrativas e financeiras do estabelecimento.

Ainda que, quase de forma irônica, é a falta de tempo que a impede de aprender o ofício, sua presença e colaboração contribuem para o funcionamento das engrenagens. “Desde que vim para cá, há 24 anos, sempre pensei que poderia aprender o ofício, mas nunca houve tempo”, diz.

Com formação em engenharia, Vera explica, contudo, que o comércio sempre esteve nela como o ofício esteve no pai, tio e antepassados. Herança familiar, a Relojoaria Ângelo, que em 2021 completa 65 anos de atuação em Petrópolis, há tempos deixou de ser uma simples atividade; é beleza e poesia no comprometimento de uma família à cidade.

(Reportagem produzida para a revista de aniversário da cidade emitida pelo jornal Tribuna de Petrópolis em 16/03/2021)

Confira, abaixo, o curta-metragem sobre a Relojoaria Ângelo produzido dentro da série “Petrópolis Sob as Lentes da Tradição”, que pretende registrar, em vídeo, histórias e memórias envolvendo o comércio tradicional local.

 

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

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