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Pirulito: retrato da infância petropolitana há mais de 40 anos

Já são mais de 40 anos com o Sr. Roberto Cury, filho do também comerciante Sr. Abdalla, à frente da loja

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Quem frequenta o comércio de uma cidade e é atento aos detalhes que o compõem, inevitavelmente percebe que cada estabelecimento traz consigo uma trilha sonora. Não necessariamente aquela vinda dos rádios, mas uma determinada pela essência do segmento no qual o negócio está inserido. No caso da Pirulito, pensar na loja é visualizar todas as vidas que a tiveram como pano de fundo para sua infância e adolescência.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Se num restaurante não há trilha sonora que se escreva sem os ruídos dos talheres e das conversas que acontecem entre garfadas, na Pirulito não há melodia melhor do que a manifestada pelas crianças: público-alvo da loja. São grunhidos e risadas que traduzem com exatidão a mistura de alegria e emoção sentida pelos funcionários que, há 43 anos, são parte importante da infância e do crescimento dos petropolitanos.

Aos 77 anos, o petropolitano Roberto Cury fez do comércio sua profissão e fonte de uma de suas maiores alegrias. Filho do libanês Abdalla, então proprietário da Casa Cury, o também comerciante Roberto crê que o gosto pela área tenha se dado pelo sangue. Chegando a trabalhar no negócio do pai, ele fundou a própria indústria – a Curylã, a loja Pipitto e, nos anos 70, assumiu a Pirulito, que antes pertencia a seus primos Cláudio e Edgar.

Aparecem ao centro da primeira imagem o Sr. Abdalla junto do jovem Sr. Roberto Cury. Na segunda fotografia, também ao centro, a esposa do Sr. Abdalla e mãe do Sr. Roberto, Laurice Cury. Imagens: Arquivo pessoal família Cury

De uma modesta porta na altura do antigo Café Rio Branco, a loja cresceu junto de seus clientes e foi transferida para a Rua 16 de Março, onde permanece até hoje junto da Pirulito Baby – esta dedicada somente aos pequenos. “Eu me sinto muito orgulhoso porque a gente já atende a terceira geração das famílias. É um ramo gostoso porque cada criança é uma criança. Algumas dizem que querem ser donas da loja”, ri o senhor Roberto.

Com duas filhas, Renata e Vanessa, e três netinhos, o comerciante, ao que tudo indica, tem seguido os passos do pai e transmitido à família o dom de escrever histórias e bem servir a clientela. Se, no passado, era ele quem observava o modo de fazer comércio do pai, agora é ele quem serve de inspiração para a filha, Vanessa Cury Fabião, de 52 anos. Tendo crescido atrás dos balcões, ela também não se vê em outro lugar, a não ser na loja.

Foto: Divulgação

Durante as férias escolares, era para a loja do pai que Vanessa ia para “fazer um dinheirinho extra”. Disposta a fazer o que fosse necessário, ela dobrava roupas, atendia clientes e, pouco a pouco, se via cada vez mais imersa naquele universo próprio do Sr. Roberto. “Meu pai ama aquilo. A Pirulito é ele. Ele está sempre ali, presente na loja, vivendo e respirando aquilo tudo. E eu também adoro”. 

Chegando a morar por 10 anos no Rio com o marido e os filhos, desde que retornou a Petrópolis, Vanessa voltou também à convivência e ao trabalho ao lado do pai. Na área administrativa ou nas vendas, ela aponta a união da família e dos funcionários como sendo um dos fatores mais prazerosos e estimulantes na rotina. Na pandemia, ela testemunhou a criação de uma verdadeira rede de apoio na superação dos obstáculos.

“Foi muito legal porque todo mundo abraçou a causa. Meu marido, meu filho, minha mãe no background, sempre dando ideias. Foi uma batalha e o que segurou foi essa perseverança. Meu pai sempre positivo, acreditando, e isso é maravilhoso. É muito bom estar em família e receber esse tipo de apoio. Agradeço muito a Deus pela família que eu tenho”, descreve Vanessa, que em casa ou na loja, tem amigos e incentivadores para toda a vida.

Na imagem, o Sr. Roberto Cury ao lado da esposa, Cynthia Fiani Cury. Foto: Arquivo pessoal família Cury

A família Pirulito

Acostumada a fazer parte das famílias de clientes, a Pirulito se tornou, por si só, uma grande família que coleciona histórias. Onde os filhos das funcionárias, praticamente, também se tornam filhos de quem trabalha com elas, acompanhar o crescimento uns dos outros é, de longe, uma das partes mais gratificantes do dia a dia da equipe. É o que descreve a contadora Vera Lucia Bargas Alvarez, de 78 anos.

Funcionária do Sr. Roberto há quase 49 anos, Vera trabalha com o comerciante desde a época da indústria Curylã. Num cenário em que, mais do que um patrão, o Sr. Roberto se tornou um amigo, ela tem o prazer de dizer que, quando começou a trabalhar para a família, Vanessa tinha 3 anos de idade. Contadora e, portanto, responsável por atuar nos bastidores da loja, ela garante que não há emoção maior do que fazer parte de tantas histórias.

“Os filhos e netos das funcionárias, aos poucos, vão se tornando nossos também. Uma do escritório nasceu com a gente e já é vovó. É uma família e isso é muito importante porque o Sr. Roberto lutou tanto”, descreve Vera, que entre as amizades que coleciona está a de Márcia Monteiro, de 57 anos. Gerente-geral da Pirulito, ela também tem uma parceria de décadas com a família Cury. Ao todo, são quase 40 anos de união.

Contratada para trabalhar no escritório, ela passou pela Casa Cury, pela Pipitto e, então, pela Pirulito. Convidada para assumir a gerência, ela tem sido uma das testemunhas da renovação de gerações de clientes e do acolhimento proporcionado pela família Cury. “É muito gostoso trabalhar com criança porque a gente está sempre rindo, vendo as malcriações, as gracinhas. Elas crescem e depois voltam para comprar para os filhos”.

Chegando a mencionar o caso de uma cliente que compra roupas para a neta na Pirulito e que, no passado, teve seus próprios trajes adquiridos pela mãe na loja, Márcia diz que, como ela, existem várias frequentadoras da loja. São pessoas que, mais do que admiradoras da qualidade e da filosofia do estabelecimento, têm prazer em se sentir parte de uma família e de uma trilha sonora que exprime alegria.

Foto: Divulgação

(Matéria produzida a convite da CDL Petrópolis e veiculada no site da entidade em 31/10/2021)

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

10 Comments

  1. Eu tive o prazer de trabalhar pra essa família, tenho grande apreço e admiração pelo sr. Roberto, seus familiares e seus colaboradores que são pessoas ímpar que vestem a camisa da loja.

  2. Parabéns Carolina pela excelente matéria! Sempre tive o maior carinho e admiração pela Pirulito! Vestiu meus filhos e meus 3 netos! O mais novo, ainda cliente dessa loja linda ,com o Sr Roberto sempre presente e funcionárias super atenciosas e gentis! Adorei saber a história da família, que só fez aumentar meu respeito e carinho por esse patrimônio da nossa cidade!

  3. Parabéns por mais este trabalho de excelência!!!
    Falar do nosso amigo Sr. Roberto é fácil.
    Carismático, atencioso, amigo todos os adjetivos são poucos em relação a esta pessoa. Família nota mil!!!
    👏👏👏

  4. Trabalhei na Pirulito no centro da cidade , saí e todas as vezes q6ue precisei voltar , as portas sempre estiveram abertas pra mim e sei que hoje se precisar serei acolhida novamente. Obrigado por ter feito parte da família Pirulito.

  5. Minha infância foi marcada pelas belas roupas que minha mãe comprava na PIRULITO. OBS: minha mãe escolhia e levava para casa para que eu experimentasse. Hoje , aos 41 anos , mãe de 3 filhos, compro tudo que meus filhos precisam, assim como minha mãe comprava, nessa bela loja, formada por uma equipe maravilhosa. Parabéns seu Roberto!

  6. Trabalhei durante alguns anos na Pirulito, na Rua do Imperador e depois na 16 de março. Foi um período muito bom. Sr. Roberto realmente foi o melhor patrão que tive. Muito educado, honesto, justo e divertido. Lembro dessa época com muito carinho. Seu sucesso é merecido pelo empenho e amor pelo que faz. Parabéns!!

  7. Parabens Carolina, voce conseguiu captar com muita exatidao o inexato das emocoes de cada um dos musicos desta orquestra regida com tanto carinho pelo Roberto Cury

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