/

Panificação Elite e o pãozinho de cada dia

Fiel escudeiro, era o francesinho da Elite era que dava o dia como iniciado ou concluído

Comece a ler

Crocante, cativante e estimulante, a massa não pesava o bolso e, muito menos, o dia. Na verdade, era sua leveza que o movimentava e o balanceava. No raiar do dia ou no cair da noite, era a Panificação Elite a responsável pelo abrir e fechar dos olhos de quem, movido pelo pãozinho, à casa retornava a cada nova jornada.

Fiel escudeiro, o pão francês da Elite era quem dava o dia como iniciado ou concluído. Neto de Abel Borges, português que adquiriu a panificação em 1940, o aposentado Rodolfo Chauffaille, de 62 anos, relembra a rotina do empreendimento que, depois de um tempo, também se tornou sua.

“Ela funcionou com a minha família de 1940 a 2004, passando do meu avô para o meu tio, Fernando Borges. Dali, assumimos eu e meu irmão, Marco Antônio e, no fim, ficamos eu e minha irmã, Márcia Laura. Foi uma história de vida. Nós morávamos em cima da padaria e toda a produção era feita embaixo”.

Como Rodolfo define, pão francês é como arroz e feijão. “Você come o pão francês de manhã, de tarde e de noite. Pode comer todo dia que não se cansa porque ninguém fica sem ele”. E, de fato, a mistura de farinha, água, sal e fermento era o que movimentava a produção da família e as manhãs da clientela.

“Nós chegamos a desmanchar lá em torno de 25 sacos de 50 quilos de trigo por dia, o que dá 30 mil pãezinhos por dia. Não houve ninguém que vendesse mais pão francês na cidade do que a gente. Éramos imbatíveis. Trabalhávamos 24 horas com filas constantes no nosso caixa”.

E quando Rodolfo diz que trabalhava-se o dia todo, pode-se ter certeza de que a afirmação está longe de ser exagero. Era ele quem abria a padaria e por lá chegava às 3h30 da manhã. Tudo isso para bem servir os trabalhadores que desembarcavam no Centro bem cedinho.

Rodolfo de mãos dadas com o avô, Abel Borges, e o irmão, Marco Antônio. Foto: Arquivo pessoal: Rodolfo Chauffaille

“Eu levantava as portas às 4h50 porque o primeiro ônibus com os operários das fábricas da época chegava às 5 horas ali ao lado dos Correios, onde tinha um ponto de ônibus. A empresa sempre foi limitada e extremamente familiar. Chegamos a ter 42 funcionários e naqueles anos todos só tivemos um gerente: o senhor Carlos Pinto Vieira”.

Tudo bem que o francesinho era o carro-chefe da casa, mas passado um tempo, um outro estrangeiro disputava atenção com ele: o brioche folhado de queijo e presunto, de fabricação própria. “Meu irmão, Marco Antônio, revolucionou as padarias em Petrópolis por ter introduzido as lanchonetes nas padarias. Lançamos o brioche na cidade e chegamos a vender mil unidades por dia na nossa lanchonete”.

Entre um cafezinho e uma mentirinha

Foi explorando novos territórios que, clientes e funcionários, cada um a sua maneira, criaram laços profundos com a Elite. Para Karin Marcela Macek, de 66 anos, nada se comparava à máquina que moía café da loja. De família estrangeira, ela explica que a bebida, assim como seu aroma, foram novidades para ela.

“Meus pais eram tchecos e, como ninguém bebia café lá em casa, o cheiro era novo pra mim. Frequentei a padaria desde 1965 e me lembro bem da máquina que o moía. A medida em que era moído, você via os grãos diminuindo pelo bojo grande de vidro transparente. Cheguei a experimentar o café, mas naquela época achei muito forte”.

O tempo passou e a admiração pelo grão continuou, mesmo que a distância. “Raramente bebo café e nunca me acostumei com o gosto. Antigamente, eu bebia chá-preto com leite em casa. Foi falta de costume mesmo porque minha irmã mais velha tem enxaqueca com o cheiro da bebida. Engraçado como os hábitos de criança ficam impregnados”.

Fotos: Arquivo pessoal Rodolfo Chauffaille – Bruno Avellar

Atrelado ao cafezinho estavam os biscoitos mentirinha, que formavam uma dupla imbatível. E falando em mentirinha, houve quem, vez ou outra, talvez tivesse outros motivos, além do aroma do café, para passar em frente à Elite. A supervisora de inspeção Leise Licht traz à tona um “gato” que marcou o empreendimento, ou melhor, um “pão”.

“Sempre passava por lá na minha adolescência. Às vezes entrava para um lanchinho rápido e o que mais me recordo é do suco de laranja delicioso que vendiam lá. As lembranças são várias: sonhos, paqueras e o homem lindo que sempre estava na porta. Mais tarde soube que era dono ou filho do dono da panificadora”.

A identidade do misterioso rapaz continua um enigma. Questionada se o reconheceria caso o visse novamente, Leise explica “nunca foi nada que poderia ser levado a sério”. De qualquer forma, a troca de olhares lhe rendeu boas histórias, como a vez em que quase acertou em cheio um poste localizado bem em frente à Elite. Para disfarçar, o jeito foi rir.

A mágica da fermentação e da infância

Fotos: Arquivo pessoal Rodolfo Chauffaille – Bruno Avellar

“Muitos falarão que tudo é pão, mas o da Elite era diferente”. É essa a fala do funcionário público Celso Souza Faria, de 53 anos. Para ele, a panificação não se resumia ao pão, mas, principalmente, à atmosfera do local. Adolescente, à época, Celso recorda o bom humor dos funcionários, que não deixavam os problemas pessoais transparecerem.

“Os funcionários eram carinhosos para com todos, fosse com crianças, adultos ou idosos. Em outros locais em que você é atendido, é sempre aquela pessoa rancorosa que quer descontar os problemas no próprio serviço. E lá não. Tinha até uma senhora que passava por vários problemas em casa, mas que não demonstrava. E parece que ela achou em mim um amparo, porque eu tinha a idade próxima a do filho dela”.

Fosse com a família Chauffaille por trás do negócio ou com famílias que se reuniam para um lanche, a história da Elite está atrelada às histórias de petropolitanos como o servidor federal Fabricio Von Seehausen, de 34 anos. Depois da escola, era lá que a mãe e a avó o levavam para reabastecer as energias.

“Eu deveria ter uns cinco ou seis anos e tenho essa lembrança de ser um lugar enorme. Me lembro dos banquinhos de madeira em que eu e algumas crianças sentávamos e ficávamos girando até chegarem nossos salgados. O folhado de queijo era muito bom, o melhor! Nunca mais comi um como aquele. O queijo totalmente diferenciado do que temos hoje”.

E, por incrível que pareça, Fabricio não foi enganado por seus olhos de criança. Segundo Rodolfo, a Panificação tinha 600 m². Passados mais de dez anos desde que fechou as portas, a Elite continua a intrigar a clientela que busca saber: além da semolina, o que diferenciava a massa do pãozinho? Com ou sem ingrediente secreto, era lá que água e farinha se transformavam na massa que matava a fome e dava o ar da graça ao dia a dia.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 10/02/2019)

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Você se inscreveu com sucesso e, a partir de agora, será notificado sempre que uma nova postagem for ao ar!

Houve um erro enquanto tentávamos concluir sua inscrição

Petrópolis Sob Lentes will use the information you provide on this form to be in touch with you and to provide updates and marketing.