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Pastel do Seu Zé: há mais de meio século tradição na feira de Petrópolis

Com seu jeito próprio de cativar os fregueses, Seu Zé se destacou pelo carisma e pelos princípios que incorporou ao trailer

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Ir à feira é uma experiência sensorial. Da primeira à última barraca, a paleta de cores se intensifica na mesma proporção com que o freguês imerge num universo pautado por sons e sabores. É o caso do trailer do pastel do Seu Zé. Há mais de meio século parte da feira de Petrópolis, o lugar se tornou parada de quem, mais do que o lanche, busca o acolhimento.

Natural de Três Rios, onde trabalhou na lavoura, Seu Zé começou a vender pastel na feira de Petrópolis em meados dos anos 60. Um caminho sem volta, diga-se de passagem. Foram 52 anos a serviço dos petropolitanos numa rotina determinada pela qualidade, mas, sobretudo, pela generosidade e pelo carinho depositado em cada produto vendido.

Foto: Arquivo pessoal Edson Pires de Oliveira

Com seu jeito próprio de cativar os fregueses, Seu Zé se destacou pelo carisma e pelos princípios que incorporou ao trailer, sendo o principal deles o que diz que quem tem dinheiro come e que, quem não tem, come também. É o que explica, com orgulho, o petropolitano Edson Pires de Oliveira: filho do Seu Zé e um dos responsáveis por preservar o seu legado.

Foto: Arquivo pessoal Edson Pires de Oliveira

“O Seu Zé sempre doou e isso continua. Muitas pessoas não têm acesso a uma refeição por dia, então é um privilégio poder doar um lanche para elas. A gente também sempre bota um salgadinho de brinde para os fregueses mais presentes. É outra característica do Seu Zé que a gente faz questão de manter”.

Tendo começado a trabalhar com o pai aos 15 anos de idade, Edinho, como é mais conhecido pelo público, é hoje quem continua a escrever a história de Seu Zé junto do amigo e colaborador de longa data, Darci, e do filho Jonatas. Como no tempo do patriarca, os pastéis e bolinhos são preparados na hora, seguindo a mesma receita de sempre.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Quem conhece, sabe bem que não existe pastel ou coxinha cuja massa, crocância e recheio se compare ao que é vendido por eles. Segredo de Estado, como brinca Edinho, por mais solicitações que sejam recebidas do público, as receitas permanecem em sigilo. “Quando eu estiver com meus 90 eu passo a receita”, diz ele, aos 57 anos de idade.

Onde, além da qualidade, o clima também é marcado pela descontração, é seguro dizer que a boa convivência faz do trailer ponto de encontro de diferentes gerações de petropolitanos que, além do apreço pelas receitas, dividem o carinho pela eterna figura do Seu Zé. Afinal, para Edinho, é graças à clientela que a história continua a ser escrita.

“É como se fosse nossa sala de terapia. A gente ri, brinca, vende e paga nossas contas. A clientela é fiel e é a alegria de trabalhar. Feliz é aquele que tem um trabalho, né? Não importa qual seja. Desde que ele levante com prazer”.

Para o colaborador Darci José Campos, de 63 anos, por exemplo, o dia só se dá por completo depois do trabalho na feira. Funcionário do trailer do Seu Zé desde os 9 anos de idade, Darci aprendeu todas as receitas ao longo dos anos de convivência e hoje é braço direito de Edinho. Apelidado de Robertinho porque, na infância, vivia cantando músicas de Roberto Carlos na feira, ele também se acostumou com o carinho do público e não imagina seus dias sem ele.

“Eu trabalhava descascando milho do lado do trailer. Seu Zé me puxou para cá e não saí mais. Estou aqui até hoje. Já me aposentei, mas, se eu não vier, sinto que está faltando alguma coisa”. 

Carinho que atravessa gerações

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Dizem que a felicidade é multiplicada quando compartilhada, e foi assim que se sentiu a petropolitana Odete Fátima de Souza Freitas ao apresentar sua filha ao trailer do Seu Zé. Tendo o conhecido ainda na infância, quando fazia feira na companhia de sua mãe, ela imediatamente soube que esse era um privilégio digno de ser dividido.

Detentor, segundo descreve ela, de uma receita de coxinha que é obra-prima, Seu Zé também possuía um coração generoso como poucos. “Era uma pessoa com um coração boníssimo que tinha prazer em servir, em transmitir esse sabor e proporcionar a felicidade que é degustar essa coxinha. Muito crocante por fora e saborosíssima por dentro”.

E mesmo quando sua filha, por algum motivo, não podia comparecer à feira, Seu Zé sempre fazia questão de presenteá-la com um bolinho ou pastel para que ela pudesse degustá-lo de casa. Com o coração e o pensamento sempre alinhados e preocupados em melhor atender e acolher o freguês, o feirante transmitiu, entre outras qualidades, a gentileza.

É o que confirma a também freguesa de longa data, a senhora Eliani Macedo Moreira, de 71 anos. Numa história semelhante à de Odete, ela também teve seu primeiro contato com o Seu Zé na companhia de sua mãe. Habituada a fazer feira de 15 em 15 dias, já é certa a sua presença no trailer, munida de seu pedido cativo: o saboroso pastel da casa.

“Nos anos 60 eu fazia feira com a minha mãe e ela sempre me dava um pastel do Seu Zé. Eu casei, passei um tempo sem ir, mas quando voltei a fazer feira fui correndo comprar o pastel dele. Gosto do cuidado que eles têm ao fazer. Eles estão sempre mexendo comigo e com todo mundo que chega lá. O astral deles é superior”.

Onde há sempre lugar para gentileza, o trailer do pastel do Seu Zé se caracteriza, acima de tudo, pela atenção dada a cada freguês. “O Edinho sempre quebra as duas pontinhas do pastel para o ventinho sair e não queimar minha língua”, comenta dona Eliani que, assim como o restante da clientela, é leal ao legado deixado pelo Seu Zé. Exemplo de dedicação, generosidade, carinho e prazer no servir e acolher.

Foto: Arquivo pessoal Edson Pires de Oliveira

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

6 Comments

  1. Muito bem! Como não moro mais si em Petrópolis, sigo daqui do Ceará esses momentos de nostalgia por minha terrinha! Obrigado menina por me lembrar de coisas boas da minha infância! À propósito vc virou uma profissional e tanto, parabéns de novo!

  2. E o melhor da cidade eles estão de parabéns tive a honra de conhecer o seu ze homem de coração lindo e hoje o Edinho outra pessoa maravilhosa sempre que vou a feira faço questão de ir na barraca só pra dar um oi Edinho continue essa pessoa linda de coração como você e seus colaboradores também

  3. Moradora da Mosela, conheci o pastel do Seu Zé através do meu sogro, em 1991, ele já era cliente há muitos anos e todos os domingos trazia o pastel da feira, no Alto da Serra, onde ele morava! Depois que conheci e o meu sogro se mudou do Alto da Serra, cruzávamos a Rua do Imperador para saborear essas delícias na feira do Centro, aos sábados. Vivi tudo que li na matéria, desde os brindes até a pontinha quebrada para esfriar.

  4. Não me envergonho de estar chorando. Se Zé é o meu irmão mais velho. Foi para mim um segundo pai, igual ao meu primeiro pai. Me ajudou muito. Eu fui analfabeto até aos 20 anos; nessa idade eu limpava as ruas no bairro Helvécia, lá no bairro Morin; ele trabalhava na Fábrica Autora, e arranjou emprego pra mim na fábrica em agosto de 1962. Em 24 de novembro de 1963, eu me converti à De Cristã. Em 04 de abril de 1964, analfabeto, me matriculei na terceira série do antigo curso primário’ no Colégio Ruy Barbosa – no Alto da Serra. No dia 3 de fevereiro de 1973, com apenas 9 anos de estudo, fui contratado como professor de Ciências e Matemática do Liceu Municipal de Petrópolis, e, no final de agosto do mesmo ano, fui contado como professor de Ciências e Matemática do Colégio Estadual, Dom Pedro II, de Petrópolis, conhecido como “Cenip”. Em tudo o meu querido e saudoso irmão, José Pires – o se Zé do Pastel, foi um exemplo de vida para mim. Valho-me da oportunidade para agradecer a jornalista Carolina Freitas, pela homenagem que à memória do meu irmão e amigo – o seu Zé do Pastel.

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