Lealtex e a certeza de que é na trama que se costuram histórias e motivos para voltar

Xodó da rede, a loja de Petrópolis tem no carinho e na fidelidade dos compradores seu principal alicerce

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Junção das iniciais do sobrenome Leal com Tex, de tecido, o empreendimento, do nome à atuação, é regido assim: em família. Num ambiente em que grande parte dos funcionários carrega décadas de atuação e amizades, não é de se surpreender que, em seu aniversário de 50 anos em Petrópolis, a Lealtex tenha se firmado como uma das principais lojas a escrever de maneira exemplar a história do comércio da cidade e de quem a habita.

De tão intrínseco que o elo se tornou, para alguns pode ser difícil imaginar que, na verdade, o negócio tenha tido início fora de Petrópolis. Mas foi o que correu. Fundada pelo visionário Adelino de Oliveira Netto, natural do Espírito Santo, a Lealtex teve início no Rio de Janeiro, ainda nos anos 50. Em atuação conjunta com os filhos, foi em 1971 que o empreendedor subiu a Serra com seu jeito próprio de fazer negócio e escrever pela história em família.

Registros da inauguração da filial de Petrópolis, em 26 de abril de 1971. Fotos: Arquivo Lojas Lealtex

Chegando a ter filiais no Espírito Santos e em Minas Gerais, a Lealtex, que tem em Petrópolis seu “xodó”, mantém duas lojas no Centro do Rio, uma em Niterói e outra em Nova Iguaçu, além do e-commerce, pela internet. Consolidada por quatro dos filhos do senhor Adelino – Luiz Carlos, João Batista, Ramon e Jovelina – a firma permanece sinônimo de irmandade, como explica a neta do capixaba, Ana Luiza Schmidt de Oliveira Netto.

De paletó preto, o patriarca e visionário Adelino. Ao seu lado direito, o filho João Batista, pai de Ana Luísa. Foto: Arquivo Lojas Lealtex

Diretora da Lealtex, ela fala com admiração da visão única de negócio tida pelo avô e do orgulho que é garantir que o legado do empreendimento, a que se dedica há quase 30 anos, permaneça. “Minha vida é manter essa marca tradicional viva. Todo sábado estou na loja de Petrópolis e vejo que as pessoas vão porque gostam, porque querem dar oi. Todos os vendedores que estão com a gente tem 30, 40 anos de casa”.

Ana Luiza e Ivan: parceria de longa data. Foto: Arquivo Lojas Lealtex

Homenagem ao pai do fundador, o senhor Accácio de Oliveira Leal, o nome Lealtex assume diferentes rostos, dependendo da filial a que se refira. No caso da loja de Petrópolis, quem já se tornou “a cara da Lealtex” é o senhor Ivan Nunes, de 72 anos. Funcionário desde a inauguração da rede na cidade, ele tem de tempo de casa os mesmos 50 anos de atuação do empreendimento em Petrópolis.

Contratado aos 22, Ivan cresceu ao mesmo tempo em que viu desenvolver o negócio no respeito e na consideração dos fregueses. Formado em Estudos Sociais pela UCP, abriu mão da carreira de professor para se dedicar às lições que adquire e divide na Lealtex. Chegando, segundo ele, a ser o líder de vendas no terceiro mês de loja, Ivan tem, há 50 anos, dado aos clientes motivos de sobra para retornar.

Dedicado como quem zela pelo próprio negócio, o petropolitano teve na venda de balas na porta do cinema sua primeira experiência no comércio. Graças à Lealtex, adquiriu a casa própria e, mais do que patrimônio, construiu uma família. Tanto a formada pela esposa, Maria Marlene, e filhos, Ivanderson e Janaína, quanto aquela que tem no carinho e na fidelidade dos compradores da Lealtex seu principal alicerce.

“Tem sido uma caminhada muito gostosa, por isso a gente se dedica até hoje. Para você ter ideia, com três dias de loja minha esposa ganhou neném e aí uma das freguesas que eu tinha acabado de atender, a Dona Janete, trouxe um presente. Isso é muito importante no caminhar da vida porque nos dá uma força muito grande”.

Chegando a atender o ex-presidente Figueiredo, Ivan tem motivos no passado e no presente para continuar.

Se as lembranças da caminhada são boas, a satisfação de entender o que o público quer é o que o faz continuar na empreitada com o mesmo carinho e afinco do fundador. “Estamos onde estamos por causa do senhor Adelino. Ele era um exímio comprador. Veio aqui e disse assim: é o melhor ponto. A Lealtex é o coração da cidade. Jorra pro lado esquerdo e para o direito. Todos sempre passam por aqui. Aí a gente passa a criar amor pela empresa”.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Numa tradição de cumprimentar e estar perto dos funcionários que foi iniciada com o capixaba e continuada por seus filhos e netos, não há dúvidas de que quem colabora com a Lealtex se sente parte de algo maior que, de fato, tem na relação vendedor x cliente sua artéria principal. É o que afirmam o filho e a viúva do senhor Gélio Dalvino da Silva, o “Geli”, como muitos se lembram.

Natural do Espírito Santo, Gélio se mudou para Petrópolis a pedido do senhor Adelino. Numa inspiradora jornada de entrega e dedicação, conta-se que Gélio foi contratado pela firma antes da abertura da filial de Petrópolis e que, de faxineiro, se tornou um dos mais respeitados e competentes gerentes tidos pela empresa. Apaixonado pela loja, como descreve o filho Flávio Lopes da Silva, não havia expediente que limitasse sua devoção.

“Foi a primeira experiência do meu pai no comércio e a que ele dizia ser a única. Meu pai começou como peão. Fazendo faxina, carregando mercadoria e galgando os degraus dele. Às vezes ele acordava cedo para ir para a loja simplesmente por estar lá”.

Tendo, segundo Flávio, estado na loja duas semanas antes de falecer, Gélio zelou pelo nome da empresa, ao mesmo tempo em que construiu o seu lá dentro.

Gélio ainda na época de propagandista e, ao lado, nas comemorações dos 40 anos da loja. Fotos: Acervo pessoal Iolanda Tavares Lopes – Arquivo Loja Lealtex

De acordo com sua esposa, Iolanda Tavares Lopes, de 68 anos, Gélio fez parte da Lealtex, ao mesmo tempo em que a Lealtex fez parte da vida dele. Se, por um lado, o senhor Ivan se tornou o rosto da loja, por outro, era o companheiro Gélio o coração que fazia a filial pulsar com generosidade em Petrópolis. Chegando, no Espírito Santo, a trabalhar como propagandista da empresa, mantinha a humildade e o respeito a quem o rodeava.

“Mesmo enquanto gerente, ele tratava a todos com muito respeito. O Ramon, um dos donos, foi o padrinho do nosso filho. O Gélio amava aquela loja. As tristezas, as alegrias dele, era lá que ele colocava para fora”. Responsável por pautar a vida dos funcionários, a empresa também é quem acompanha a jornada de pousadas, costureiras, facções e recordações de quem, na Lealtex, mais do que um tecido, encontrou um lar.

Para mãe e filha Márcia Peçanha, de 57 anos, e Maria Alcina, de 81 anos, a relação com a loja teve início logo que as duas se mudaram para Petrópolis, em 1974. Duradouro, o relacionamento se mostrou fonte de tecidos para a confecção de dona Alcina, amizades e acolhimento para as duas. Onde atendimento e simpatia se mostram à prova do passar do tempo, já são mais de 45 anos de parceria entre a família e a loja.

Bem-humorada e delicada para atender, a turma é o que faz com que dona Alcina, já aposentada, continue a passar na loja, nem que seja para jogar conversa fora. “Eles estavam festejando aniversário em 1974. Tinha palhaço, muita coisa. Fiquei curiosa e entrei para conhecer. Nunca consegui comprar em outro lugar. Costurei durante 60 anos. Não trabalho mais, mas tenho a mania de passar”.

Fotos: Petrópolis Sob Lentes

Do vendedor Miranda, ao Álvaro, Ramon, Gélio e Ivan, dona Alcina construiu um leque de amizades e também de possibilidades, já que, a partir da loja, se disse capaz de fazer de tudo um pouco: de roupa fina e esportiva, a uniformes e roupa de cama. E, junto dela, esteve sempre a filha. Márcia recorda as vezes em que, ainda criança, cumpria a listinha de compras da mãe e retornava para casa com sacolas e a certeza de ter sido bem atendida.

“O Gélio era uma mão de força ali dentro. Não podia ter prateleira bagunçada. Tinha que estar tudo arrumado. Eu ia lá com a listinha e eles vendiam direitinho, aí voltava eu com aqueles pacotões de tecido. Hoje a gente já não compra tanto tecido, mas compra cobertor, cortina. Se estou com sede na rua, vou lá na Lealtex beber água. Quero ir ao banheiro? Passo lá também”, afirma Márcia.

Tendo nos tecidos sua especialidade, há 50 anos em Petrópolis a Lealtex é prova de que é na trama que se costuram histórias, amizades, e motivos para retornar.

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

12 Comments

  1. Que matéria linda! Me fez viajar no tempo.
    As casas Lealtex foi meu primeiro emprego,lá fiquei por quase 10 anos. E tenho um orgulho imenso disso!

    • Muito feliz em saber que gostou, Viviane! Busquei fazer jus à linda trajetória da loja na cidade. Adorei saber que você contribuiu com a história da casa!

  2. Trouxe boas lembranças da Lealtex aqui no Rio, mas também conheci a de Petrópolis, pois sou de família Petropolitana.

  3. Amei a matéria!
    Minha mãe foi uma das clientes pioneiras da Lealtex, pois nesta época da fundação, começou a sua confecção de malhas. Conheço o Ivan, gente boa demais, sempre atencioso e dedicado com todos! Lembro-me de todos os vendedores, pois muitas vezes precisava comprar algo pra minha mãe e não sabia…eles sempre me davam aquela dica valiosa! Assim, fui aprendendo a saber escolher…
    Parabéns, equipe Lealtex! Realmente, é uma família.
    Ana Carolina, parabéns pela sensibilidade do texto em transcrever a essência dessas pessoas tão especiais, que fizeram parte da minha infância e juventude. Muito obrigada a todos!
    P.S. : continuo cliente até hoje… inevitável!

    • Muito obrigada pelo retorno e pelo carinho, Elaine! Adorei saber que a Lealtex cativou sua família como fez com tantas outras! Muito bonito ver como esses laços só se fortalecem com o tempo, a exemplo de você, ainda cliente depois de tantos anos! Muito obrigada pelo retorno!

    • Muito obrigada pelo retorno, Luiz! Fico muito feliz em saber que ajudou a escrever a linda história da loja na cidade, ao mesmo tempo em que ela também contribuiu com a sua! Um abraço!

  4. Que delicadeza a sua em retratar de maneira tão próxima a linda história destas pessoas que fazem parte da vida de meu pai e, consequentemente, da minha.

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