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Em 1973, jovem que estudava em Petrópolis foi o único passageiro a sobreviver a acidente aéreo que matou 123 em Paris

Tendo passado 30 horas em coma, Ricardo Trajano conta que os médicos não lhe davam uma semana de vida

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Ainda que as chances de sofrer um acidente aéreo sejam de uma em três milhões, foi em sua primeira viagem internacional que o carioca Ricardo Trajano, à época com 21 anos, ficou entre a vida e a morte. Então estudante do curso de Engenharia da Universidade Católica de Petrópolis, ele chegou a ser anunciado como uma das vítimas fatais pela imprensa daquele que viria a ser chamado de “Acidente de Orly”.

Foto: Reprodução/Internet

Com escala em Paris, o voo tinha como destino final Londres: a meca do rock n’ roll e sonho de consumo do jovem Ricardo que, além de estudante universitário, era músico na época. Em entrevista ao projeto Petrópolis Sob Lentes, Ricardo Trajano conta que o que ele não esperava era que o passeio fosse interrompido antes mesmo de feita a escala. Afinal, foi a cinco minutos da capital parisiense que teve início a fumaça no avião.

“O avião começou a queimar a 2.500 metros de altitude. Houve um pouso forçado numa plantação de cebolas e eu fiquei acordado até ele aterrissar. Depois apaguei, perdi os sentidos e fui levado a um hospital, mas como eu estava queimado quando dei entrada, me confundiram com um comissário e a primeira notícia que chegou para a minha família foi a de que eu havia morrido. Só minha mãe acreditava que eu ainda estava vivo”.

Foto: Arquivo pessoal Ricardo Trajano

Declarado morto em 11 de julho de 1973, Ricardo foi, na verdade, o único passageiro sobrevivente do acidente que deixou 123 mortos. Tendo ficado por 30 horas em coma, ele conta que, naquele tempo, os médicos diziam que ele não viveria por mais de uma semana. Hoje, aos 66 anos, ele recorda o difícil processo de recuperação durante os três meses internado e, principalmente, os novos significados e valores atribuídos à vida.

Foto: Arquivo pessoal Ricardo Trajano

“Ainda desacordado eu escrevi o nome do meu pai e os telefones para contato. Praticamente psicografei esse bilhete, já que eu estava inconsciente, e aí o velório que estava lá em casa, de repente, virou uma festa, já que até o meu velório já estava encomendado. Eu estava com as costas, nádegas e coxas queimadas, mas desde os meus primeiros dias de internação eu buscava extrair aquilo de bom que me rodeava”.

Ricardo, que seis meses depois do acidente retornou às atividades na UCP, sem sequelas, chegou a se formar engenheiro civil pela universidade e, há cerca de três anos, decidiu dedicar-se a palestras sobre o acidente. E é justamente numa dessas palestras, a TED talk dada por ele ao TEDx Centro Universitário Newton Paiva, que Ricardo dá detalhes sobre os momentos que antecederam a queda do Boeing 707, da Varig.

“Eu estava sentado lá atrás, na penúltima fileira, quando notei a fumaça vindo do toalete. Por impulso tirei o cinto e fui andando para a frente. Quando cheguei lá o comissário-chefe me deu uma bronca e me mandou voltar imediatamente para o meu lugar, mas eu o desobedeci e continuei a andar. Aquela fumaça densa já tinha tomado conta de tudo quando me veio aquele filme da minha vida numa fração de segundos”, lembra.

Anos a fio acreditando que havia sido abraçado pela morte, Ricardo conta, também na TED talk, que recentemente ouviu de um amigo que, na verdade, foi naquele momento que ele foi protegido pela vida. Resiliente, Trajano, que também na ocasião chegou a testemunhar o avião se desmontar em chamas e a ser atingido por uma das placas, costuma dizer que está “no lucro e no crédito da vida há muitos anos”.

Foto: Reprodução/Internet

Tendo recebido alta do hospital com 15 quilos a menos do que quando entrou, Ricardo, por outro lado, saiu com a bagagem mais cheia do que antes. Além de cartazes motivacionais dos pais e dezenas de cartas do mundo todo, ele se viu munido de novos valores e da certeza de que é no próprio ser que está a felicidade e de que é na simplicidade que ela pode ser encontrada.

“Cheguei à conclusão de que somos seres essencialmente simples e de que nos momentos mais difíceis e importantes da nossa vida a diferença está na simplicidade. Eu costumava achar que a minha felicidade estava junto com o futuro, quando a felicidade está junto de mim. Felicidade é só questão de ser. Eu ia adorar se existissem dois atos, mas a vida é só uma e a cortina só fecha uma vez.

Abaixo, o link para a TED talk “Sobre Viver!” na íntegra. E, para quem ficou curioso, um ano depois do acidente Ricardo conseguiu, enfim, finalizar a viagem que havia sido interrompida! Com a mesma agência, rota e destino (mas sem imprevistos), dessa vez, de surpresa, ele recebeu somente o “upgrade” à primeira classe, como ele mesmo brinca.

Ricardo, que tem se dedicado a palestras sobre o Acidente de Orly e os aprendizados adquiridos a partir do episódio, pode ser acompanhado no Instagram @ricardochusttrajano.

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

1 Comment

  1. eu conheci bem o RICARDO TRAJANO. ele estudava na UCP e eu, então, fiz uma escolinha de basquetebol no CORONEL VEIGA, então um clube muito bom. RICARDO jogava basquetebol no FLAMENGO e estudava na UCP. eu lembro que, quando estávamos jogando contra o PETROPOLITANO, estávamos ganhando e tínhamos 2 gêmeos que jogavam no FLUMINENSE. estudavam aqui também. mas RICARDO chegou atrasado e, sempre educado, pediiu desculpas e eu falei com ele para aguardar um pouco, ele era PIVÔ, uma posição difícil no BASQUETEBOL, pois apanha muito. entretanto, o jogo estava tão “quente” que eu, como capitão da equipe, não pude deixar o Ricardo entrar, pois ele tinha chegado frio, sem aquecimento. perdemos o jogo por muito pouco, mas foi ali que começou o campeonato oficial de basquetebol de Petrópolis. se jogasse, RICARDO decidiria o jogo, pois era muito bom no basquetebol. era, e ainda é, alto. mas o técnico tem que decidir, como ele estava frio, preferi não colocá-lo, pois o basquetebol é um jogo dinâmico. tempos depois, soube do acidente. há algum tempo depois, vi o RICARDO TRAJANO na TV, e fiquei muito emocionado. existem mais alguns pormenores. RICARDO escapou, também, porque estudava na UCP, e rastejou até à porta do piloto, entrando lá, naquela época a porta poderia ser aberta, hoje não é mais. então, os passageiros todos já estavam mortos. salvo engano, o piloto avisou a ORLY que todos os passageiros tinham morrido, e que ele ia aterrisar com essa situação. todos os tribulantes escaparam, mas ficaram com problemas psiquiátricos, como eu soube através de alguém da companhia. RICARDO escapou com eles. tempos depois, pelas mãos do jornalista SYLVIO DE CARVALHO DA SILVA, o “JORNAL DE PETRÓPOLIS” publicava que RICARDO tinha retornado à UCP e voltou a jogar basquetebol. eu me emocionei mais uma vez, quis tentar falar com ele, mas não consegui. existem mais detalhes. salvo engano, no mesmo avião estava o SENADOR FELINTO MÜLLER, antigo chefe do DOPS de Getúlio Vargas. FELINTO foi treinado, como eu soube depois, na Alemanha Nazista. aqui, era odiado pela esquerda e, como o pessoal comentava, um homem marcado para morrer. do lado de FELINTO estava o cantor AGOSTINHO DOS SANTOS, cuja voz encantava o mundo. ambos morreram no voo. enfim, embora muito dura, a história de RICARDO TRAJANO é uma história que encanta e que mostra que existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia (Shakespeare). forte abraço, RICARDO, vc não lembra de mim, mas eu me lembro muito bem de vc, vc era o melhor da equipe e jogava no FLAMENGO. saúde. Fernando Luiz de Pércia Gomes, Petrópolis, RJ.

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