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Casa Nova: a loja que lançou e virou moda

Rodeado por amigos, Chucre Fiani, o Tito, fez de uma das mais sofisticadas lojas na cidade, seu porto-seguro

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A intenção era estar nas alturas, e assim o fez. Piloto do próprio negócio, o senhor Tito Fiani constatou que a visão mais bela é aquela obtida de cima. Tendo transcendido os horizontes do conhecido, alçou altos voos e prosperou com a Casa Nova, sinônimo de inovação para cada nova geração.

Fazer e escrever história. Era esse o objetivo do senhor Chucre Fiani, o ‘Tito’. Apaixonado pela aviação, tinha como ambição servir na Segunda Guerra Mundial. Acontece que, como explica seu filho, o professor de economia Ronaldo Fiani, de 57 anos, o trajeto foi alterado e o legado deixado em Petrópolis.

“O sonho dele era ter ido para a guerra como aviador. Chegou a se preparar para ir, mas minha avó entrou em pânico. Ele ficou dividido, não sabia se ia e, quando decidiu ir, a guerra acabou. Ele ficou muito frustrado porque dizia que aquele seria um fato histórico do século e que participar daquilo era fundamental”.

Impedido de comandar a própria nave, passou a liderar o próprio negócio, o que acabou sendo tão prazeroso quanto o plano inicial. Rodeado por amigos, fez de uma das mais sofisticadas lojas na cidade, seu porto-seguro. Segundo Ronaldo, ir à loja fazia parte da rotina diária do pai.

Chucre Fiani e o filho, Ronaldo Fiani. Foto: Arquivo pessoal Ronaldo Fiani

“Meu pai ficou à frente da Casa Nova desde a fundação até o falecimento dele, em 1963, quando o negócio passou a ser administrado pelo meu tio Afif Fiani, último proprietário. Era o meu pai com a Casa Nova, o tio Alexandre com a Feira Livre e o tio Afif com uma parte da Galeria Guanabara, que era uma loja de produtos importados no Rio”.

Ainda de acordo com Ronaldo, de tão querido na cidade, quando o senhor Tito faleceu, em torno dos 45 anos de idade, até os engraxates compareceram ao enterro. E se para voar não podem faltar asas de humildade, o ex-funcionário da Casa Nova, Darcy de Azevedo, de 81 anos, assegura que eram elas que diferenciavam o patrão dos demais.

“Trabalhei na Casa Nova por uns oito ou nove anos. Sonhava em ser funcionário de lá porque era uma loja de elite. Atendíamos advogados, juízes. O gerente era o senhor Geraldo Seixas, camarada durão, mas muito educado para falar com a gente. E o sócio-proprietário era o senhor Tito, excelente patrão que se tornou um grande amigo meu”.

Vendedor do setor de camisaria, o senhor Darcy relembra aquele que classifica como um dos melhores tempos de sua vida profissional. A dedicação era grande, assim como a afeição entre os funcionários e a diversão nos momentos de lazer. Ele menciona os torneios de futebol disputados entre comerciantes.

“Até hoje lembro dos anos em que trabalhei na Casa Nova com muita alegria. Nosso time se chamava Grêmio Recreativo Organizações Fiani e disputávamos com a Casa Cury, supermercados, Ultragaz, Casas Pernambucanas e alguns outros. O pior do grupo era eu. O mais fraquinho: tanto fisicamente quanto tecnicamente”, brinca.

Fusão entre ruas e gerações

Fotos: Reprodução Internet – Bruno Avellar

Com saídas tanto para a então Avenida XV de Novembro, quanto para a 16 de Março, a Casa Nova era ponto de encontro de ruas e gerações. Afinal, se tornou quase que tradição entre os clientes fidelizar seus sucessores ao estabelecimento que, com isso, se tornou querida por pais e filhos.

“Tenho boas recordações de lá. Quando eu era mocinha minha mãe comprava roupas para mim, para minha irmã e para ela também. Depois fui eu quem comprei na Casa Nova as roupinhas para o meu primeiro filho, Ricardo. Me lembro de um casaquinho branquinho abotoado nas costas e bordado na frente”.

É o que conta a aposentada Maria Magdalena de Oliveira Saldanha, de 81 anos. Admiradora do profissionalismo e do carisma da família Fiani, ela chega a mencionar, ainda, sua experiência na parceira Feira Livre, onde adquiriu seu enxoval em 1959, ano em que se casou com Paulo Silveira Saldanha.

“A família Fiani era excelente. Muito boa mesmo. Comprei na Feira Livre um cobertor grande, azul da cor do céu, da marca Scavone. Também comprei lá o tecido para fazer meu vestido de noiva e a lingerie para o meu enxoval de Lua de Mel porque, antigamente, a gente fazia a camisola, o hobby, tudo branco com renda”.

E por falar em amor, o designer gráfico, heraldista e historiador Renato Moreira Gomes, de 86 anos, conta que foi na Casa Nova que encontrou seu enxoval de casamento e, anos antes, a “vendeusa” por quem seu coração adolescente bateu mais forte: Vera, a estrela da equipe de vendas – eleita, inclusive, uma das mais belas comerciárias de Petrópolis.

“A conheci no grupo escolar Dom Pedro II. Ela cursava a quinta série e eu a quarta, mas nunca trocamos uma palavra. Ela era uma princesa inatingível, de um tipo de beleza que não mais existe, e eu um humilde campônio. Foi uma história de amor platônico juvenil, mas sua beleza era fascinante, tanto que nunca esqueci”.

Os dois seguiram por caminhos diferentes, mas se há algo que os uniu, assim como aconteceu com os demais petropolitanos, foi a admiração pela loja que lançou e virou moda, fez e escreveu história.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 07/07/2019)

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

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