/

O casal que passou lua de mel no Quitandinha em 1949 e, além da vida a dois, foi presenteado com a chave do quarto

Lembrete diário da força do amor dos dois, a chave evoca histórias e lembranças do passado de Gilda e Geraldo

Comece a ler

Foi em 1949 que um casal de mineiros decidiu escrever um novo capítulo de sua história de amor no Quitandinha. Noivos, eles passaram a lua de mel hospedados no palácio e, mais do que recordações que levaram para toda a vida, os dois foram presenteados pela gestão, como era tradição no local, com uma chave personalizada do quarto e, principalmente, com a chave para a vida a dois.

Gilda e Geraldo Ventura Dias eram naturais dos municípios de Leopoldina e Juiz de Fora, respectivamente. À época moradores de Ubá, foi o nome da cidade um dos aspectos mencionados sobre os dois na chave confeccionada pelo Quitandinha. De um lado, os nomes dos noivos e, do outro, a data de entrada no hotel e a cidade de origem do casal que, anos mais tarde, viria a se estabelecer em Petrópolis.

Quem recorda os momentos mágicos vividos pelos dois no Quitandinha é sua filha mais velha, Simone Ventura Dias Moraes Marinho, de 69 anos. Com base no que lhe foi contado ao longo dos anos, Simone explica que, mais do que reforçar a relação dos pais, a viagem a Petrópolis também fez com que o casal se apaixonasse pela cidade.

“Minha mãe era do interior, nunca tinha saído da cidade dela e ficou encantada por Petrópolis. Ela falava muito sobre o passeio de pedalinho que eles fizeram no lago do Quitandinha e de terem visitado os pontos turísticos da cidade. Ela ficou deslumbrada e, anos mais tarde, meu pai, que era funcionário do Banco do Brasil, recebeu a proposta de ser transferido para cá”.

Tendo se estabelecido na cidade em 1960, grande parte da família se manteve em Petrópolis. Ao todo são quatro irmãos: Simone, Ricardo, Sandra e Mônica. E foi justamente Ricardo Ventura Dias, de 67 anos, quem, após o falecimento dos pais, no começo dos anos 2000, descobriu um acervo de fotografias, vídeos e a preciosa chave da lua de mel dos dois, que chegaram a completar bodas de ouro.

“O hotel era tão chique que eles davam de presente para o casal um estojo de veludo com uma chave enorme que era a chave do quarto. Tudo é muito transitório na nossa vida, mas o amor deles permaneceu como inspiração para todo mundo. Tanto que criamos uma rotina em que, a cada ano, no Natal, um de nós passa a ser o guardião da chave e do álbum de fotos do casamento. É quase um santuário”.

Lembrete diário da força do amor para quem se torna guardião da chave, o item evoca histórias e lembranças do passado, como o fato de que, não fosse a mudança para Petrópolis, Geraldo talvez não tivesse resgatado suas raízes literárias e musicais. Eleito cidadão petropolitano, foi membro da Academia Petropolitana de Letras e autor dos hinos da cidade e dos clubes Serrano e Petropolitano F.C.

“Homem dos hinos”, como brinca Simone, o pai, de acordo com ela, era poeta e deveria ter sido também maestro. Capaz de tocar qualquer instrumento “de ouvido”, sem nunca ter recebido aulas, fazia poesia com notas musicais e também com palavras, uma vez que a família também já se deparou com antigas cartas de amor escritas por ele para a esposa. 

Foto: Arquivo pessoal Ricardo Ventura

Como Ricardo bem apontou, num mundo em que a realidade e os relacionamentos se mostram cada vez mais líquidos, não faz mal lembrar que o amor, quando bem cuidado e construído, se faz sólido e resistente ao avançar dos ponteiros.

Carolina Freitas

Jornalista e escritora, Carolina Freitas se dedica ao resgate e à valorização da memória petropolitana a partir da produção de reportagens e curtas-metragens sobre a história, o comércio, e a vida da cidade.

1 Comment

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.