Thiago Gomide: ‘Carolina atravessou a rua’


Henry Kappaun via @fuiprarua


Publicado no jornal O Dia em 24/01/2020

A primeira vez que andei sozinho foi em Petrópolis, com 10 para 11 anos.

Minha avó paterna estabeleceu o limite. No final da calçada, sem atravessar a rua.

Junto a um amigo, bem mais esperto, lá fui eu desbravar os fardos da responsabilidade de caminhar com os próprios pés.

A última loja da calçada era uma padaria. Nada de interessante para os olhos de hoje. Na época, um universo encantado a ponto de comprar dois sorvetes com a pose de estar arrematando um Picasso na Sotheby’s de Londres.

Do outro lado da rua estava a minha coxinha favorita. Coxinha de galinha, digo. A casa “Itararé”, em frente a velha rodoviária, era ponto certo de parada após chegar na cidade onde nasci e meus avôs, tios e um primo moravam.

No “Itararé” Garrincha tomava uma antes de arrebentar no Maracanã. Carlos Lacerda e Roberto Marinho gostavam dos salgados do “Itararé”. No “Itararé” eu colecionava momentos deliciosos ao lado dos meus familiares – vários que já não estão mais por aqui. O “Itararé” era do outro lado da rua.

A loja do meu avô materno era perto da rua principal de Petrópolis. Do “Itararé” até lá, a pé, dava uns 5 minutos. Fiz esse trajeto mil vezes. Ora contemplando a cidade onde nasci. Ora sem olhar para o lado, focado.

Em uma dessas vezes, entrei na loja do vovô, que era especializada em vestidos de noiva, com uma pistola de espoleta.

Nos fundos havia um camarim improvisado. Dei um beijo no velho que aguentava o tranco no caixa e fui testar o que tinha comprado no camelô perto do Pedro II, colégio do tempo que o Imperador batia cartão nas redondezas. 

Aquele barulho de pólvora quase enfartou o “seu Walter”, como era conhecido pelas funcionárias. Devolvi o artefato. Estava no pacote de andar sozinho a caixinha do mandamento “não comprais porcaria, meu filho”.

Inevitavelmente, como com todos os netos, ele dava um respiro no expediente para comer um pastelzinho em um boteco “mais pra cima um bocado”.  

Há dois ou três meses, minha tia avisou que uma jornalista estava resgatando memórias da loja do meu avô para uma reportagem. A série criada por Carolina Freitas, do jornal “A Tribuna de Petrópolis”, remonta a história de lojas e bares que já fizeram parte do cenário petropolitano.

Grande ideia que deu origem a um livro. Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras, morador de Itaipava, assina o prefácio. Pouca coisa não.

Perguntei a Carolina sobre os desafios.

“Conquistar a confiança dos petropolitanos e leitores. Eles hoje são meus maiores incentivadores, me ajudam na busca por contatos de entrevistados e me sugerem pautas, mas no começo era diferente. Quando comecei a escrever as reportagens tinha 18 anos. As pessoas ficavam desconfiadas, não acreditavam que eu fosse capaz de escrever sobre um tempo que não vivi”, disse.

É, Carolina atravessou a rua.

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Palácio das Noivas

Vovô e vovó, não posso esquecer, venderam a loja no final da década de 1990, começo dos anos 2000. O comprador foi um comerciante vizinho.

A própria “Tribuna”, jornal até hoje assinado por meus tios, deu a notícia do fim daquela que, por décadas, foi a única especializada em casamentos.

O texto virou motivo de piada, não por erro, mas por interpretação propositalmente maldosa.

“Vamos vender antes que um mau administrador acabe com a loja”, disse minha avó.

Brincávamos com meu avô, que defendeu os sustentos por quase 50 anos atrás daquele balcão, que só poderia ser ele. Vovó entrava na farra.

Vovô morreu no dia do trabalhador, em 2004. Justo. Vovó cantou pra subir em 2016. O enterro foi no dia das crianças. Justo.

A reportagem está nesse link.

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Itararé

O bar fechou as portas na década de 2000. Imensa perda.

A mudança da rodoviária tornou insustentável o negócio. Acredito.

Quando recebi de Carolina a capa do livro, meu Deus!, vê-se ao fundo o lugar exato onde ficava o “Itararé”.

Era a visão da minha primeira vez andando sozinho.

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Serviço completo

O livro vai ser lançado neste sábado (25), a partir das 19 horas, na Casa de Cláudio de Souza, no Centro de Petrópolis. O evento é gratuito e aberto ao público.

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Teatro Paulo Gracindo

Cresci indo para o teatro Dom Pedro e que depois se tornou Paulo Gracindo.

Meu tio Cláudio era o administrador.

A obra de 2003 e 2004, que trouxe características originais, acompanhei já como repórter do querido O’Pasquim 21.

Merece toda a atenção do mundo.

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Eu trocava tudo por mais um domingo no D’Angelo, vendo meu tio Luís e meu avô tomarem uma cerveja enquanto eu e meus primos comíamos torrada Petrópolis.

Injusto o outro lado da rua ficar tão distante. Injusto.