Quem arrisca não petisca, e era esse o primeiro passo para explorar o restaurante: pegar a estrada para Itaipava. Seguindo à risca o manual – figurado pelas porções de cascudo e pelas emoções do forró – de mansinho o cliente ia chegando e, recebido com carinho, devagarinho fazia do Altair ambiente para descontrair.

Petrópolis, São José, Três Rios, Posse, Teresópolis. Independente de onde vinham, era no Altair que as turmas em busca de bons momentos interagiam. Receptiva e divertida, o que a noite de lá reservava era motivo suficiente para o funcionário público Rone de Oliveira de Assumpção, de 43 anos, sair do Siméria, onde morava, e curti-la longe de casa.

“O Altair era ótimo. Era final dos anos 80, 90, então ainda tocava muito o MPB nosso, as bandas de rock da época; às vezes os sertanejos que estavam na moda, o forró que estava chegando, o falamansa. Me lembro que era tudo muito bom. Pedíamos muito o frango a passarinho no óleo. Tudo bem preparado e servido”.

Agora, se por um lado eram os pedidos de porções e petiscos que garantiam a satisfação do público; por outro, eram as canções performadas ao vivo no karaokê da casa que tornavam as noitadas no Altair mais especiais que as demais. Ao menos é o que conta o técnico em telefonia Luciano Santos Silva, de 47 anos, o ‘Gaita’.

“O diferencial, para mim, era o karaokê. E não era videokê, era karaokê mesmo com um cara tocando ao vivo. Era muito bacana porque você não ficava restrito a uma tela. Você pedia para o cara tocar a música que você quisesse, ia para o palco e, se não soubesse cantar, a galera ajudava”.

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Com uma programação diversificada e, até certo ponto, personalizada, o espaço se comprometia em promover a reunião da moçada. Para Luciano, era a essa experiência que se resumia a excelência do Altair. “Sexta-feira era dia. A gente reunia pessoas que foram criadas juntas, mas que estudavam em outros lugares, e se encontrava lá. Era muito bom”.

Causa da inquietação que tomava conta da juventude da época, a espera pela sexta-feira era motivo de empolgação. A técnica de enfermagem aposentada Sirley Marques dos Santos relembra as aventuras que vivia ao lado das amigas. Como ela explica, ia-se em cinco, que era o que cabia no carro.

“Tudo lá era maravilhoso e o forró nem se fala. Eu sei que eu ia lá sempre. Moro na Rua Teresa e, às sextas, eu e minhas amigas íamos para lá. Pelo que eu lembro ia muita gente da zona rural. Aquelas caras de chapéu, bota. Íamos para tomar uma cerveja, dançar, dar umas paqueradas”. 

O complexo Altair

O início do restaurante e do centro empresarial. Arquivo pessoal Celço Murilo Peres Bento – Bruno Avellar

Lugar ideal para se distrair, era ao restaurante que se dirigiam os comerciantes da região antes da noite cair. Foi o caso de Nelson Nicolau Reis, de 68 anos. “Almocei lá por dois anos quando trabalhei no Banco do Brasil de Itaipava no início da década de 90. A comida era muito saborosa e todo dia tinha um prato diferente. Não dava para enjoar”.

E, ainda que os pratos mudassem dia após dia, os petiscos pedidos eram quase sempre os mesmos. É o que explica a ex-funcionária Ana Lúcia Soares Mayworm, de 55 anos. “Entrei lá como faxineira, passei para auxiliar de cozinha e, depois, para cozinheira. As porções que mais saíam eram as de feijoada, cascudo, picanha, alcatra, calabresa”. 

Inaugurado em 1985, o visionário estabelecimento era pólo gastronômico, esportivo (englobava quadras de futebol society e vôlei) e comercial. Como aponta o empreendedor Celço Murilo Peres Bento, de 64 anos, filho do revolucionário senhor Altair José Bento, em 1985, junto do restaurante, foi aberto também o Centro Comercial Altair: primeiro da região.

O empresário Altair José Bento. Foto: Arquivo pessoal Celço Murilo Peres Bento

“Fomos sempre eu e meu pai juntos. Inauguramos o restaurante junto do shopping, com 20 lojas. Hoje já são 60. Na época as quadras faziam sucesso. Fazíamos grandes campeonatos com vários times da região: Banerj, Telas São Jorge. No final de semana reuníamos três, quatro, até cinco mil pessoas.  Ficava até a noitada. Era uma coisa enorme”.

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Sede de campeonatos esportivos e olimpíadas escolares, o Altair pautava a vida da comunidade, ao mesmo tempo em que estimulava o crescimento da localidade. “Acabou que abriu os olhos para o comércio aqui. É algo que nos dá orgulho porque nosso objetivo era atender a comunidade local, fazer algo direcionado para a terra”.

Marca registrada de Itaipava, talvez mal soubesse o senhor Altair que, além dos filhos Celço, César, Rosane, Viviane e Leiliane; e dos netos Celço, Felipe e Lívia, de mansinho seu nome tanto repercutiria e significaria.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 01/09/2019)