Petrópolis Sob Lentes

Um blog sobre lentes dotadas de memória e história

A Colegial: a papelaria dos uniformes

Contrário ao significado da palavra, de uniformes os trajes não tinham nada. Ainda que, à primeira vista, os fios seguissem um padrão, quando observados de perto se mostravam extensão da formação de quem o vestia. Detalhadas, as peças vendidas na Colegial eram notadas por dizer sem falar.

Além de identificarem as doutrinas e condutas dos colégios dos quais os estudantes faziam parte, os uniformes e o carinho tido por eles simbolizavam também o cuidado com o futuro. A professora Heloisa Helena Thomé Simoni, de 73 anos, relembra a exigência do uniforme no passado e o clamor que havia à educação.

“A loja era porta aberta para aquilo que a gente amava. Eu amava estudar no Santa Isabel e amava o nosso uniforme. Todos os dias eu chegava em casa da escola, passava meu uniforme e o alinhavava. A saia era de pregas, então no dia seguinte, na hora em que eu a vestia, elas ficavam acentuadas e direitinhas. Era um orgulho”.

À esquerda, inauguração da loja na Rua do Imperador, número 751, no ano de 1982. Fotos: Arquivo Biblioteca Municipal – Bruno Avellar

Aguardadas, as idas à Colegial no início do ano letivo eram apreciadas e reparadas em seus mínimos detalhes. No caso da professora Heloisa, tão marcante quanto as compras era sentir o cheiro característico da loja, ‘uma mistura dos tecidos dos uniformes e dos couros dos sapatos’.

“Se eu entrasse de olhos fechados nas loja, a identificaria exatamente por causa desse cheiro, que ficava impregnado, como é hoje na minha lembrança”. De organização e variedade admiráveis, o estabelecimento – único fornecedor de uniformes na cidade – era, como alguns bem descrevem, ‘a papelaria dos uniformes’. 

A também professora Maria Carmem Ferreira de Mello, de 69 anos – mãe de Isabel, Janaina, Maria Angélica e Agnaldo – recorda os sacrifícios feitos em apoio ao futuro, sonhos e ambições dos filhos. Ela conta como ‘os bolsinhos bordados’ vendidos na Colegial eram ponto de partida para a produção dos uniformes dos pequenos.

“O uniforme todo era bem caro, então eu só comprava o tecido xadrez e o bolsinho com os dizeres ‘Colégio Dom Pedro II’ para fazer eu mesma as saias e as camisetas em casa. No início eu não sabia fazer a saia não, mas sabe como é o amor materno, né? Ele supera, vai lá e faz”.

Casada com o advogado Aguinaldo Augusto de Mello que, à época, também era professor, dona Maria conta algumas das muitas histórias da família Mello que, assim como a Colegial, se passaram dentro de sala de aula. Afinal, como se não bastasse que seus três filhos tivessem tido aula com o pai, ela mesma o conheceu num curso de férias.

“O conheci quando eu tinha 15 anos. Eu estava afastada da escola havia dois anos e o conheci no Colégio Rui Barbosa, onde ele estava promovendo um cursinho de férias para quem fosse fazer o exame de admissão ao ginásio. Achei o anúncio no chão quando estava voltando da igreja. Fiquei apaixonada logo no primeiro dia”.

Uniformes que diziam sem falar

Caracterizada pelo cheiro, a organização e o atendimento, pode-se dizer que as particularidades da Colegial eram reflexos dos detalhados uniformes comercializados pelo estabelecimento. O bancário aposentado e ex-funcionário da loja, Julio Cesar Santos, de 59 anos, relembra o orgulho proporcionado pelo simples observar das mercadorias.

“As peças eram muito solenes e valorizavam o uniforme do colégio. Não só os de gala, no Sete de Setembro, mas os próprios uniformes do dia a dia. No Aplicação a calça e a saia eram feitos de um xadrez que chamávamos de Príncipe de Gales, e o suéter era um verde musgo. Era uma combinação bonita”.

Lado a lado com ilustres vendedores tidos como referência no comércio petropolitano, Julio Cesar, aos 15 anos, deu início a sua trajetória na Colegial. Como ele mesmo aponta, as pessoas eram reconhecidas pelo local onde trabalhavam e uma delas era a atendente Adelisa Rodrigues Machado, ‘personagem de Petrópolis’.

“Ela era alta, educada e estava sempre muito arrumada, o cabelo armado com laquê. Era uma das melhores vendedoras que tínhamos, assim como a Helenice. Tinha gente que esperava ela liberar o cliente para ser atendida por ela. Na época a norma da casa era, antes de qualquer coisa, se aproximar do cliente e dizer: às suas ordens”.

Além das vívidas imagens dos trajes e da elegância da senhora Adelisa, ainda constam na memória de Julio Cesar os ensinamentos proporcionados pelo também funcionário Cesar Luiz Almeida da Silva. Empenhado, dedicado, esforçado e, acima de tudo, humano, se tornou referência dentro e fora do ambiente de trabalho.

“Me lembro que na época em que comecei a trabalhar no banco, minha forma de escrever o C ficou meio que uma cópia do que o senhor Cesar assinava. Eu o via assinando documentos, gostei da forma como ele escrevia e adotei também na minha assinatura. Até hoje quando assino me lembro dele”.

De espírito e valores contagiantes, é seguro dizer que se há um ambiente em que sua presença deixou saudades, esse lugar foi em casa. Ao lado da mãe, Anna Maria Bello da Silva e da irmã, Daniele Bello da Silva, a pedagoga e fonoaudióloga Rosana Bello da Silva, de 56 anos, recorda os 50 anos em que o pai trabalhou na Colegial.

“Meu pai começou a trabalhar lá com 11 anos de idade como servente, faxineiro. Ele também fazia serviços de rua e depois foi promovido para o balcão, sub-gerência e, bem no final, quando o gerente, que era o senhor Manoel Gomes, se aposentou, ele ocupou o cargo. Foram 50 anos trabalhando lá”.

Cesar Luiz Almeida da Silva é o primeiro a aparecer do lado esquerdo em ambas as fotos. Fotos: Arquivo pessoal Anna Maria Bello da Silva

Tendo vivido e se dedicado à loja com tamanho carinho que parecia ser sua, desempenhar sua função e estar na profissão era o que regia a vida do senhor Cesar e também da família. Eleita a mãe lojista do ano de 1985, a senhora Anna chegou a bordar a mão as camisas dos internos do Colégio São Vicente.

E era assim, de ponto em ponto, cliente em cliente, funcionário em funcionário, que ‘A Colegial’ costurava e bordava histórias sem proferir uma só palavra.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 04/08/2019)

Anteriores

Móveis Martins Filho: entre pais e filhos

Próximo

Os irresistíveis encantos do Tarrafa’s

  1. Luiz Cláudio Macedo de Oliveira

    Ótimas matérias. A Padaria La Formarina merece ser lembrada.

  2. Lucio Agra

    Uma sugestão de correção: a data indicada na foto da inauguração é 1982 mas parece ter sido muito antes, talvez 72…

    • Carolina Freitas

      Boa tarde, Lucio! Tudo bem? A informação foi obtida e conferida junto ao Arquivo Histórico da Biblioteca Municipal. Depois de ver seu comentário fiz até questão de rever os periódicos da época e o ano está certo. Foi em 1982, como havia apontado, mas muito obrigada pela preocupação e pelo feedback!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén