Descarregar, selecionar, purificar. De tanto observar, ainda que o expediente fosse dado como terminado, os funcionários da moageira abriam suas próprias comportas e faziam a fragmentação e a classificação de suas partes. Se depois de modificados os grãos mantinham seu real valor, o que os impedia de fazer o mesmo?

Quando o ambiente se mostra estimulante, nem mesmo a aposentadoria é capaz de afastar os melhores dos funcionários. O corretor de seguros aposentado Luiz Weckmüller, de 69 anos, relembra a passagem do pai, Jair Weckmüller, pela fábrica, tanto antes quanto depois da aposentadoria.

“A moageira tinha caminhões que traziam os grãos de trigo do cais do porto para cá e meu pai era um dos caminhoneiros que faziam esse serviço. Ele trabalhou lá antes de se aposentar e depois. Até chegou a ficar um tempo em casa, mas não aguentou ficar sem fazer nada e, daí, voltou para lá”.

Questionado sobre a rotina de trabalho do pai, Luiz relembra a vez em que o viu passar pelo portão principal da moageira e descarregar. “Os grãos caíam num alçapão que os absorvia e os transportava lá para cima, onde eram debulhados. Ali tinha uma grade fina, assim as pedras e os resíduos não passavam quando a carroceria abria”.

E se dali para frente o processo era um mistério, o técnico em contabilidade e advogado Flavio Ottero Licht, que teve na moageira seu segundo emprego, relembra ‘o processo bonito’ com que tinha o prazer de, vez ou outra, se deparar na época em que trabalhou como auxiliar de escritório e, mais tarde, sub-contador.

“O trigo era descarregado pelo caminhão e tinham dutos que o levavam para o terceiro andar, onde os resíduos viravam farelo e o farelo era transformado em ração. Eu era o responsável por fazer o controle de estoque dessa coisa toda, então eu via a moagem. Na minha época era a farinha pura, o filé da casa, e a farinha mista, que era mais simples”. 

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Tendo trabalhado na moageira por, ao menos, oito anos, o senhor Flavio conta que além de entregas em Petrópolis, a farinha era consumida em Governador Valadares, Leopoldina e Miracema, por exemplo. E se o produto final ia para longe, que dirá a matéria-prima, que até o mar chegou a cruzar.

“A maior parte do nosso trigo era importada. O bom mesmo era o argentino. A importação vinha do Porto, caía no Moinho Fluminense, no centro do Rio, e dali vinha para Petrópolis pelos nossos caminhões. Na moageira adquiri muita experiência profissional. Só saí para montar escritório com um ex-contador de lá também, o Renato Kattaum”. 

Arquivo pessoal Milton Lopes – Bruno Avellar

Qualidade e fidelidade garantidas

Situada na Avenida Barão do Rio Branco, número 1.187, a chegada da moageira à região foi sinal de prestígio para quem ali morou. A professora aposentada Walda Lucia Lopes do Nascimento, de 81 anos, conta não só como foi morar por 24 anos a duas casas da fábrica, mas, principalmente, como foi testemunhar a construção do prédio.

“A rua não era nem calçada naquela época, então foi um sentido de progresso ter uma fábrica bem tratada, limpa e apresentável. Eu trabalhava muito, então não cheguei a entrar lá, mas todo mundo ali tinha curiosidade. No nosso tempo o pessoal era mais encabulado, não tinha coragem de conhecer de perto”.

Tendo, como define a senhora Walda, levado vida à região, foi a moageira a também responsável por transformar o setor de panificação da cidade, como explica Roberto Badro, presidente do Sindicato das Padarias de Petrópolis. De acordo com ele, de tão disputada, era preciso entrar na fila para adquirir a preciosa farinha.

“Com experiência de 46 anos no fabrico de massas, posso dizer que era uma das melhores farinhas do Brasil. Tenho uma saudade grande e até hoje não consegui comprar a farinha integral que eles tinham e que dava um pão integral maravilhoso. A produção era quase que artesanal, então tinha que fazer reserva com antecedência”.

Intimamente relacionada às padarias, fábricas de massa e biscoitos, a produção deixou saudade tanto para os consumidores finais, quanto para os profissionais que com ela trabalharam. Roberto menciona um amigo padeiro, que, sempre que precisava trabalhar com uma farinha diferente da oferecida pela moageira, ‘virava a cara’.

De grão em grão, um império em construção

E se do prédio saía a farinha que o moinho moía, de quem teria sido a ideia de fazer do grão um império em construção? O advogado aposentado Alcebiades Lopes Junior, de 86 anos, conta que foi seu pai, Alcebiades Lopes, o fundador e presidente do primeiro e único moinho de trigo de Petrópolis.

“Nós morávamos no Alto da Serra e meu pai construiu um moinho de fubá no nosso terreno. Vinham vagões de milho de São Paulo só para fornecer para ele, que ali também passou a representar o açúcar de lá do Quissamã. Depois ele decidiu fazer o de trigo na Barão do Rio Branco, porque lá em casa já não tinha mais lugar para construir”.

Descrito como um homem honrado, o senhor Alcebiades era, ainda, empreendedor, como define seu outro filho, o desembargador federal do trabalho aposentado Milton Lopes, de 90 anos. Fosse no moinho de fubá ou no de trigo, eram o senhor Milton e o tio, Irineu de Araújo Aranha, os braços direitos e fiéis escudeiros do visionário.

“Meu pai foi comerciante de secos e molhados, armarinho e serragem. Tudo em que ele se envolvia dava certo. A construção da moageira era um sonho dele e se deu concomitante ao moinho de fubá. Ela começou a ser construída em 1951 e entrou em atividade em 1955, fazendo uma produção de cem sacos por dia, de 50 quilos cada um”.

E se as engrenagens da Sociedade Anônima começaram a girar em 1955, pode-se dizer que foi também a partir daquele ano que, somado ao brilho dos grãos, reluziu a satisfação de quem acompanhou e apreciou a construção de um império que manteve seu valor do início ao fim.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 21/07/2019)