Longe de ser gaiola, de raminho em raminho o coração fazia ninho onde, sem exceções, se estreitavam as relações. Em família e inconscientes das proporções que o negócio tomaria, neste ninho de mafagafos, quatro mafagafinhos consolidaram um espaço que cativava e fazia com que, mesmo quem pudesse voar, escolhesse pousar e ali ficar. 

Foi no ano de 1981 que duas duplas de irmãos – Ton e Jorge Iabrudi, Sidney e Edson Thomaz Borges – decidiram abrir seu primeiro e próprio negócio: uma casa noturna com música ao vivo na Coronel Veiga. Universitários, à época, eles explicam como foi colocar a mão na massa, a começar por Edson, o “Tição”, hoje aos 63 anos.

Da esquerda para a direita: Jorge, Edson, Sidney e Ton (agachado). Foto: Arquivo pessoal Ton Iabrudi

“Antigamente abria-se um bar, ele se tornava o barzinho da moda, mas logo fechava e ia-se para outra. Gostávamos da noite, da farra, então decidimos montar o nosso. A ideia do nome veio da irmã do Tonzinho e do Jorge, a Vera, que entendia muito de MPB. Ela veio com o versinho do Mafagafinhos, que todo mundo conhecia, achamos legal e colocamos”.

Conhecedores da área em que estavam prestes a se aventurar, o grupo de amigos sabia como manter a casa cheia. A princípio o primeiro andar da casa funcionou como um restaurante de comida francesa e, o segundo, como um barzinho, mas após uma enchente invadir o imóvel, construiu-se uma boate na parte debaixo: sucesso na certa.

“Me lembro que o fornecedor de chopp da Bohemia comentava com a gente que éramos os que mais vendiam chopp da época, mais até que a Casa D’Angelo, dizia ele. A casa tinha um charme. Era toda rústica, de madeira e com bastante vidro na parte superior. Quem passava na rua via o movimento todo lá dentro”.

E por falar em chopp, o consultor tributário Ton Iabrudi, de 58 anos, o Tonzinho – um dos caçulinhas da turma – relembra como foi se arriscar e servir por conta própria as bebidas. ‘Frenético’, como ele mesmo define, o ritmo movimentado do Mafagafos tornou necessária a contratação de seguranças, guardas e a cobrança da entrada.

“Saíamos de lá às cinco horas da manhã e, às dez, tínhamos que estar de volta com as compras para abrirmos para almoço na época do resturante. Me lembro que quebrávamos muito copo porque éramos iniciantes e servíamos chopp na tulipa no balcão. Acho que chegamos a reunir mais de 500 pessoas numa noite. Foi uma época boa de Petrópolis”.

Com os fins de semana abarrotados de trabalho, o jeito era conciliar diversão e obrigação. Assim, as namoradas do grupo iam para o Mafagafos e a atenção dos sócios dividida entre a descontração e a preocupação. “Se fazia uma mesa de casais, namorávamos e trabalhávamos, pulávamos de um galho para o outro”, brinca Ton.

Como pombinhos num ninho

Se amar significa ter asas e, ainda assim, optar por fazer ninho, pode-se dizer que o Mafagafos deu sorte aos pombinhos. O empresário Jorge Michel Iabrudi, de 61 anos – irmão de Ton e sócio no negócio – conta que foi lá que encontrou o amor. ‘Uma paixão arrebatadora’, explica ele.

Da direita para a esquerda: Jorge, Cristina, Edson e Rosa. Foto: Arquivo pessoal Ton Iabrudi

“Conheci minha esposa, Cristina, no tempo do Mafagafos. Um amigo em comum nos apresentou e, cerca de seis ou sete meses depois, estávamos morando juntos. Fomos casados por mais 30 anos. Não estamos mais juntos, mas somos muito amigos. Temos dois filhos e quatro netos juntos”.

E por falar em família, Jorge diz que nem mesmo o filho Rafael, que naquele tempo tinha dois anos, escapou dos fins de semana em conjunto no Mafagafos. “Ele ficava com a gente até tarde. O pessoal que tocava lá chegou, inclusive, a fazer uma música para ele. Todo mundo sabia cantar. Realmente virou uma música característica do bar”, relembra.

Protagonista no desenrolar de alguns relacionamentos, o estabelecimento foi, ainda, decisivo na relação do administrador comercial Gilberto Nunes Cardoso, de 62 anos. Ele explica que tinha se separado da namorada, Cecília, havia um mês quando os dois se reencontraram e reataram no Mafagafos.

“Foi algo que, realmente, marcou muita gente. As pessoas iam lá para se divertir, comer, beber, conhecer pessoas. Eu e Cecília ficamos uma temporadinha separados, mas desde aquele dia estamos juntos. Eu estava sempre lá e calhou de reencontrá-la. Vamos fazer 33 anos de casados. Não sei se foi sorte ou azar”, brinca.

Cenário de noites e dias inesquecíveis

Firmado em três pilares – a comida, a música e a companhia – o astral do ninho o tornava o cantinho ideal para se repousar. Grande admiradora do espaço, a empresária Tatiana de Rezende Duarte, de 57 anos, relembra o pub e se arrisca a dizer que, de tão interessante e cativante, bem que ‘poderia voltar’.

“O Mafagafos pertenceu a dois amigos meus de infância, o Jorge e o Tonzinho. Como tínhamos o hábito de frequentar os bailes, acabamos crescendo junto dessas pessoas. Havia essa coisa da intimidade, da amizade, do companheirismo. Era um lugar em que você se sentia seguro, alegre, em casa”.

Em casa. Está aí uma palavra que bem descreveu o empreendimento. Como reforça a pedagoga aposentada Sumara Gannam Brito, de 64 anos, era ele o responsável por abrigar a grande família que era a juventude petropolitana da época e fazer das noites e dias inesquecíveis.

“Aos domingos as casas noturnas costumam fechar mais cedo, então por volta das onze e meia o pessoal ia embora e ficavam só os amigos lá. Como em todo grupo de amigos, tem alguém que toca um instrumento, então fazíamos nosso show particular. Em plena segunda-feira saíamos de lá às seis da manhã, tendo que estudar e trabalhar”.

Aconchegante e, ao mesmo tempo, entusiasmante, o Mafagafos foi ninho de quem encontrou, pelo caminho, sossego, apego e chamego.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 16/06/2019)