Petrópolis Sob Lentes

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Barquinho: a navegação que virou atração

Contra a correnteza, o navio se opunha ao fluxo da natureza. Supostamente ancorado, estrelava as aventuras de quem o contemplava. Modesto, era suficiente para a manifestação de candidatos à tripulação. Quem diria que, em pleno Rio Piabanha, a construção do Barquinho faria da navegação, verdadeira atração.

Convite para se deixar levar e arriscar, o Barquinho do Bingen teve duas eras no comércio: uma como mercearia – época em que, para os pequenos, conhecer o interior da embarcação era uma opção – e a outra, enquanto casa noturna. A comerciante Cira Rodrigues, de 66 anos, relembra as compras de mantimentos para o almoço feitas por ela no navio, a pedido do pai.

Reprodução Internet – Bruno Avellar

“Morávamos na Manoel Torres e, como meus irmãos já estudavam, quem mais ia lá era eu. Era uma experiência maravilhosa. Me lembro que a parte interna era bem normal. Vendia toda essa parte de mantimentos: legumes e verduras. Feijão e arroz a gente apanhava no cesto grande e pesava. Ainda não era ensacadinho não”.

Por outro lado, depois que se tornou discoteca, a singularidade do Barquinho fomentava a curiosidade de quem o via à noite, com as luzes acesas. Para as crianças da época, como foi o caso da jornalista e publicitária Heloisa Cavaco, de 61 anos, era torcer para logo crescer e ter a oportunidade de adentrá-lo.

Quando se é da Serra, você nasce minhoca, então está acostumado a ver montanha, orquídea. Me lembro de pensar assim: se Petrópolis não tem praia, como é que vai ter barco? Era o lado bem lúdico daquilo que a gente não tinha. O Barquinho não combinava com o cenário, destoava, mas para mim de uma forma positiva porque eu queria crescer para estar ali, de preferência velejando”. 

Tendo fechado antes que Heloisa atingisse a maioridade, pode-se dizer que a petropolitana precisou se contentar com contemplá-lo de longe. E, assim como ela, o aposentado Eloir Stützel, de 66 anos, confessa que a curiosa construção era motivo suficiente para fazê-lo trocar de assento no ônibus e vê-la mais de pertinho.

Eu morava em Cascatinha e minha avó no bairro Castrioto. Me lembro perfeitamente que quando a gente ia visitá-la eu fazia questão de ir do lado esquerdo e de voltar do lado direito, só para ver o navio. O que mais me chamava atenção era o barco estar contra a correnteza. Durante o dia ele ficava fechado, mas uma vez cheguei a descer e a ir bem na frente dele”.

Morador de Niterói há quase 50 anos, Eloir explica que, apesar de nunca ter se envolvido ou trabalhado com embarcações, sempre se interessou por elas. E parece que a recíproca é verdadeira porque, por onde passa, lá estão elas. De Petrópolis, se mudou para São Gonçalo onde, segundo ele, vê navios tomarem forma e serem lançados na água.

Barco à vista

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E foi assim, navegando por águas petropolitanas que, numa noite como qualquer outra, o hoje aposentado Derly da Silva Machado, de 82 anos, acompanhado dos amigos Ívano Menezes de Souza, Suad Abdaud e Fares Abdaud, avistou uma oportunidade de negócio: “por que não montarmos uma boate aqui?”, revive ele.

Éramos amigos, nascidos e criados em Petrópolis, e nunca pensamos que trabalharíamos juntos. O Ívano era da Receita Federal, eu trabalhava no banco Crédito Real e o Abdaud era o filho dos donos da Casa Matriz. Foi minha primeira experiência com o comércio e um hobbie que dava uns troquinhos”. 

De acordo com Derly, a boate durou, em média, cinco anos. Ainda segundo ele, nesse meio-tempo a casa recebeu grandes nomes, como Wilson Simonal e Grande Otelo. Em pouco tempo, o Barquinho, cujo movimento era certo nos fins de semana, se tornou ponto de encontro da “nata dos veranistas” da época. 

Tínhamos umas dez mesas e aqueles bancos em volta, igual a um navio, com as escotilhas e uma porta de aço que fizemos. Enchia logo. Servíamos todo tipo da bebida, mas principalmente Cuba Libre, Hi-Fi e sanduíches; e levávamos aqueles discos compactos, pequenininhos, de 45 rotações. Me lembro que era uma animação sempre que tocávamos ‘Trem das Onze’”. 

Íntimo, o ambiente oferecia diversão e descontração na medida. O arquiteto Paulo César Hoelz, de 74 anos, conta que foi ao Barquinho que recorreu na véspera de sua prova de acesso à faculdade de Arquitetura e Urbanismo. E não é que a saidinha deu sorte? Ele não só passou no vestibular, como há 44 anos tem sua própria firma.

“Acho que não foi a primeira vez em que estive no Barquinho, mas talvez tenha sido a última. Foi divertido, bom para descontrair. Me formei em 1970 e até hoje tenho uma empresa de projeto e construção em funcionamento. Um dos projetos que desenvolvi foi o do Centro Esportivo da UCP no Bingen”.

Para a aposentada Maria Aparecida Nunes, de 67 anos, a farra no Barquinho fazia parte de sua rotina escolar. Moradora do Bingen, tinha o navio como parada obrigatória a caminho do colégio. “Brincávamos de esconde-esconde, nos escondíamos para dar susto nas outras crianças, corríamos em volta do navio, batíamos papo. Era muito legal. A vida era assim, colorida”.

E foi assim, incessante, que a destoante construção de um Barquinho se tornou uma atração ecoante.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 19/05/2019)

 

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  1. Lucio Agra

    Uma sugestão, na mesma linha do Barquinho: a caixa dágua em forma de foguete que ficava na saída de Quitandinha, na antiga IBF (Indústria Brasileira de Filmes). Quando era criança, essa era a grande expectativa de visão ao sair de ônibus de Petrópolis, rumo ao Rio.

    • Carolina Freitas

      Boa noite, Lucio! Tudo bem? Muito obrigada pelas colocações e sugestões, sempre construtivas. Ainda não havia ouvido falar no foguete, mas certamente procurarei por ele. Um grande abraço!

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