O amor pelas mercadorias era à vista, mas a compra… Ah, essa era parcelada. Longe de cilada, as prestações eram caminho para as aspirações. Desafiadoras e transformadoras, punham em xeque um leque de produtos que davam frutos. Adentrar a Casa Xavier era o mesmo que se preparar para o que desse – para custear – e o que viesse – de novidade.

Moldado pelo tempo, é de se esperar que o comércio passe por mudanças, e não seria a Casa Xavier que fugiria à regra. Como aponta o jornalista de 73 anos Paulo Antônio Carneiro Dias – cuja família esteve à frente do negócio por cerca de 50 anos – de uma tradicional loja de tecidos, a casa se tornou um grande magazine de louças, cristais, ferragens, porcelanas e alumínios.

“A família Carneiro Dias comprou a Casa junto com a família Fiani, em 1950. Ela saiu do ramo de tecidos, e passou a vender produtos muito sofisticados; evoluiu para o ramo dos eletrodomésticos e também lançou a Lambreta em Petrópolis que, naquela época, exigia muita sofisticação para atender à demanda da aristocracia da cidade”. 

Tendo se tornado sócio do empreendimento em 1969, Paulo Antônio relembra o sucesso feito pelas Lambretas, televisões e geladeiras comercializadas, além dos anúncios feitos pela loja nos jornais e rádios. Destacado, o comércio do Centro se baseava na figura dos petropolitanos que, segundo ele, têm tradição de bons pagadores.

“Em 1969 a família Carneiro comprou a parte dos Fiani, que ficaram com as lojas Feira Livre e Casa Nova, e entrei de sócio na Casa Xavier, que chegou a liderar a venda de televisão Philips no estado do Rio. Nosso sucesso era o anúncio permanente, o mala direta, as promoções, o atendimento pós-venda. Criamos até um bonequinho chamado Xaxa, que era quem dava os bons preços”.

E quando o assunto envolve as primeiras Lambretas em Petrópolis, quem não pode ficar de fora é o corretor de seguros Hélio Banal, de 82 anos. Tendo adquirido suas duas primeiras motonetas na Casa Xavier, ainda aos 18 anos, ele recorda os dias em que havia apenas três unidades em toda a cidade. Agora, ele brinca: “hoje motocicleta também são só duas, por metro quadrado”.

“Por muito tempo ficamos só com três Lambretas aqui na cidade. Era eu e mais dois: o alfaiate Hélio Infingardi e o comerciante Rodolfo Fernandes. As comprei com o Carneirão, o velho Carneiro, já falecido, e a entrega foi feita pelo mecânico Romeu, que era quem fazia a manutenção dos veículos. Depois várias outras pessoas começaram a adquiri-las”. 

Museu Imperial/Ibram/MinC – Bruno Avellar

As primeiras de muitas vezes

De tão envolventes, as primeiras vezes na Casa Xavier tornavam as idas à loja recorrentes. A aposentada Lídice Quádrio Veiga, de 73 anos, recorda a primeira geladeira adquirida por seu pai. Feita na Casa Xavier, a compra – sucesso tanto na família, quanto fora dela – se tornou a primeira de várias outras.

“Foi engraçado porque não havia crediário, boleto bancário, nem nada isso. Me lembro que os funcionários foram lá no Quissamã, onde nós morávamos, e ofereceram uma promoção. Podia pagar em várias vezes, mas meu pai não se metia em prestações porque tinha pavor de dívidas. Acontece que a paixão dele era coisa gelada, então de tanto que eles falaram, ele acabou comprando”.

Longe de ser objeto de arrependimentos, a geladeira, tida como a primeira a ser adquirida na região, mudou a rotina da família de Lídice e da vizinhança. Tão grande quanto a curiosidade provocada pelo utensílio era a comodidade causada por ele. Para se ter noção, uma prateleira da geladeira era dedicada às receitas das vizinhas.

“Tinha vizinha que no sábado levava lá pra casa pudim para elas poderem comer geladinho no domingo. Era pudim de leite, pudim com maizena, aqueles pudins antigos, coloridos. E o papai, que quando solteiro só tomava sorvete quando ia ao Rio, passou a fabricar o próprio junto com a mamãe e a vender à beça”.

Uma petropolitana, que preferiu não se identificar, também relembra a maneira com que a primeira televisão adquirida por sua família, na Casa Xavier, transformou sua rotina e levou, para dentro de casa, a liberdade de assistir àquilo que mais satisfazia a subjetividade de cada um. A imagem era em preto e branco, mas as emoções projetadas eram coloridas.

“A TV foi paga em 24 prestações, 24 notas promissórias assinadas, porque a loja não fazia carnê de pagamentos. Era um sonho de todos nós, então a emoção foi enorme. Depois, minha mãe, sempre guerreira, comprou uma TV colorida, em 36 vezes. Tudo isso lavando roupa pra fora e costurando, o que ensinou a mim e aos meus irmãos a importância de honrar nossos compromissos”.

Lar de quem sonhou colorido

Museu Imperial/Ibram/MinC – Bruno Avellar

Ambiente favorável a primeiras experiências, a Casa Xavier foi o primeiro emprego da modelista Nubia Rosana Carvalho da Costa, de 54 anos. Graças a um anúncio no jornal, a menina, de 14 anos à época, participou do processo seletivo da empresa e conquistou sua vaguinha naquela tida como referência na venda de móveis e eletrodomésticos. 

“Isso tem 40 anos. Eu fazia os cadastros do crediário, que era o que tinha na época. Nesse tempo o gerente era o senhor Gall, um chefe bom e justo. Lembro de quando um gringo entrou lá. Ele queria fazer o primeiro crediário da vida dele, mas quase não falava português e se recusava a todo custo a nos dizer sua renda mensal. Acabamos cedendo e deixando que ele fizesse”.

Descrita por Nubia Rosana como aquela que “estava a frente”, a Casa Xavier era uma loja de movimento e envolvimento por parte da clientela. O petropolitano Júlio César Santos, de 59 anos, traz à tona as memórias de quando sua tia, Marlene, comprou a primeira vitrola da família e revolucionou sua relação com a música, também na Casa Xavier. 

“Eu tinha entre 11 e 12 anos. Lembro que nesse mesmo dia minha tia comprou o LP “Você” do Tim Maia, lançado em 1971. A imagem da vitrola, cuja tampa era a caixa de som, ficou associada a ele. Nossa rotina mudou muito porque não ficávamos mais dependentes daquilo que tocava no rádio. Até hoje determinadas músicas e artistas me fazem lembrar dela”.

Morador da Chácara Flora, Júlio César explica que o simples fato de ir à Avenida já era emocionante. Que dirá comprar alguma mercadoria. “Ir ao Centro era como viajar para outro lugar cheio de emoções novas. Minha tia faleceu quando eu estava com 15 anos. De uma forma muito especial, ela e as Casas Xavier mudaram minha vida, para melhor, com a beleza trazida pela música”.

Pronta para o que desse e viesse, assim era a Casa Xavier: lar de quem sonhou colorido e amou à primeira vista.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 12/05/2019)