A grafia da loteria já esclarecia: a zebra dava lugar à sorte. Numerosas, as combinações de opções eram minuciosas, ao mesmo tempo em que determinação e convicção entravam em ação. Com o S na posição do Z, as loterias Joãosinho atestavam que tentar a sorte nunca é demais.

E quando a sorte faltar, que tal fazer sobrar a atitude? Pois era isso que o casal de aposentados Eda Portugal da Silva, de 82 anos, e Enio Correa da Silva, de 84, fazia: ela nas raspadinhas e ele na loteria esportiva. As chances poderiam não ser lá essas coisas, mas como quem não arrisca não petisca, o que lhes custava tentar?

“Eu jogava todo fim de semana na loteria esportiva. Era um boleto com 13 jogos e podíamos optar por 3 colunas: as da esquerda e da direita eram os vencedores e a do meio era o empate. E o prêmio era total: você acertava tudo ou nada. Era sempre muito complicado, mas tinha aquela expectativa de ganhar uma graninha extra por fora”, diz Enio rindo.

Difíceis de prever, os resultados das partidas aconteciam no programa Fantástico, da Rede Globo. Emblemática, a zebrinha, segundo Enio, aparecia sempre que o time mais fraco vencia. “Era divertido aquilo lá. Ela aparecia com uma vozinha engraçada e dizia: olha eu aí. Ah, e naquela época nossas apostas eram perfuradas num cartãozinho”.

Se de um lado era o senhor Enio que se divertia e se entretia com suas apostas na casa lotérica, por outro, era sua esposa, dona Eda, que se distraía com suas raspadinhas. “Até hoje quase sempre jogo porque gosto de fazer minha apostinha. Já ganhei uma TV de plasma de 42 polegadas, então a gente vai sempre tentando”.

Reprodução Internet – Bruno Avellar

Entre uma aposta e outra

Quem ia até as loterias, dificilmente saía de mãos abanando. Fosse de bilhetes premiados ou de itens da bomboniere/charutaria, entre uma aposta e outra, a vitória era certa. O corretor de imóveis João Fernando Sorsonas, de 54 anos, neto do empreendedor João Lauriano Sorsonas, o Joãosinho, relembra a época em que trabalhou ao lado do avô.

“Meu primeiro emprego foi lá. Eu devia ter uns 14 anos. Cheguei a trabalhar em outras empresas, mas em 1989 assumi a charutaria e fiquei à frente dela por uns 10 anos. Nós abríamos às seis da manhã – isso na visão do meu avô para atender o pessoal das indústrias. A loja tinha esse conceito para atender desde cedo os clientes”.

Considerada uma casa comercial de sucesso, João Fernando chama atenção para a grafia do nome Joãosinho, em que o S ocupa o lugar do Z. De acordo com ele, o avô sempre dizia que se tratava do “S da sorte”. Impressão ou não, a troca parece ter surtido efeito. Afinal, as vendas iam desde cigarros e souvenirs, a brinquedos e outras mil e uma utilidades.

Movimentado, o fluxo na loja tinha início assim que as portas da loja eram abertas. O petropolitano Mário Borde, de 48 anos, ex-funcionário da bomboniere da loteria, recorda a espera daqueles que, religiosamente, se posicionavam em frente ao estabelecimento, diariamente, para comprar seus cigarros e cartões de aposta.

“A loja abria e já começava a entrar gente. Dava 06:01 e eles já estavam lá. Lembro que, naquela época, tinha corrida de cavalo. O pessoal dizia que era um perigo e viciava qualquer um. Tinha uma salinha lá nos fundos em que, todo dia, num certo horário da tarde, entrava aquele monte de gente para ver, ao vivo, a corrida e conhecer o cavalo vencedor”.

E que comece o jogo

Enquanto os adultos se deixavam levar pelos jogos, as crianças tentavam a sorte com os pais. Afinal, tentar garantir uma guloseima na bomboniere era motivo suficiente para se apostar todas as fichas. O autônomo Rafael Amoedo, de 35 anos, conta quais eram algumas das muitas tentações vendidas no local.

“Eu era bem garoto. Tinha no máximo nove ou dez anos. Eles vendiam coisas específicas e de qualidade: pastilhas, Chocolate Surpresa, drops de doce de leite e a Bala Boneco, que vinha num pacotinho e era em formato de um bonequinho. Era tudo que uma criança gostaria de ter”.

Para a aposentada Inês Guimarães Soares, de 68 anos, uma das três filhas do “seu” João, ter o pai que teve, por si só, já foi um prêmio. “Meu pai foi uma pessoa muito dinâmica e comprometida; tratava a todos com muita dignidade e estava sempre pronto para fazer alguma coisa em benefício da cidade e das pessoas”, relembra com carinho.

Inês explica que eram duas as lojas das loterias Joãosinho: uma na atual Rua do Imperador, 615; e a outra no Edifício Santa Inês, na Rua Dr. Porciúncula. Revendedor autorizado e representante do Jockey Clube Brasileiro, “seu” João também batia um bolão na loteria esportiva, sendo, segundo ela, o único a oferecê-la à época.

“Vinha gente da Posse, de Pedro do Rio e da Baixada jogar. Naquela época era tudo manual, então tinha dias da gente sair às cinco da manhã de lá. Fui gerente da lotérica quando trabalhei com meu pai que, antes de ser comerciante, foi inspetor de estrada e ajudou, junto com um grupo de petropolitanos, a abrir as estradas de rodagem do Paraná”.

Segundo Inês, foi em torno de 1944 que o pai deu início à vida no comércio petropolitano, ao adquirir o bar/restaurante Coringa. De proprietário de posto de gasolina a uma loja de tecidos, foram várias as atuações de José Lauriano até que encontrasse, nas Loterias Joãosinho, a sorte que faltava. Afinal, tentá-la nunca é demais.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 07/04/2019)