Misteriosas, místicas e, até certo ponto, mágicas, as fórmulas receitadas eram tidas como dádivas. Frutos do saber, as composições eram extensões de uma mente que atuava, ora na manipulação de substâncias, ora na manutenção da vida. Resultado de uma jornada, a Farmácia Souza provava que a essência do viver está em se fazer significar.

Numa época em que, no lugar de remédios, vendiam-se soluções, a farmácia, consolidada na Ponte Fones, era a opção nº 1 de quem buscava o bem-estar. Desde remédios para piolho a graves feridas, era à figura amiga do “seu Souza” que a clientela recorria, a qualquer hora do dia, como explica a aposentada Sônia Regina Chabudé de Castro, de 56 anos.

“Foi ele quem cuidou, com muito carinho, da minha anemia por muito tempo. Minha mãe trabalhava o dia inteiro e, às vezes, me dava crise à noite, então a gente corria na casa dele no Cremerie, onde nos atendia até na madrugada. Ele abria a farmácia na maior boa vontade. Era muito carinhoso. Uma pessoa maravilhosa”.

Assim como ela, a também aposentada Sônia Regina Carvalhal Gomes, de 69 anos, preserva um profundo sentimento de gratidão pelo ancião que, sempre que necessário, acolheu sua família num ambiente que, segunda ela mesma descreve, “transpirava conhecimento”.

“Quando meu neto era pequeno, o seu Souza o curou de uma otite brava. Ele estava com água no ouvido, aquilo não foi tirado direito e acabou evoluindo para uma infecção. Não sei te dizer qual foi o remédio que ele usou. Só sei que ele receitou um pózinho mágico de Pirim Pim Pim e meu neto ficou sanado. Nunca mais teve problema nenhum no ouvido”.

Tendo atuado enquanto enfermeira e professora da UFRJ, Sônia afirma, sem pensar duas vezes: “Ele era muito melhor do que muito médico na cidade. O conhecimento que ele tinha era uma sumidade. As fórmulas que ele desenvolvia eram ouro em forma de papel. Aquele era um abençoado por Deus. Uma pessoa muito dedicada. Lembro dele com carinho”.

Mestre e amigo

É na convivência que se descobre o outro e, se em poucos encontros, os pacientes já se sentiam transformados pelas lições do “seu Souza”, que dirá os ex-funcionários da farmácia. Aos 72 anos, a comerciante Edna Elisa Leite, relembra os anos em que trabalhou como balconista ao lado do que pode chamar de um segundo pai.

“Éramos quatro filhos e só meu pai trabalhava, então minha mãe arranjou emprego para mim lá na farmácia. Como eu era criança, a princípio fui xingando, mas a melhor coisa que minha mãe fez na vida foi me colocar para trabalhar. Cheguei aos 14 e trabalhei lá por 16 anos. Tinha o seu Souza como um segundo pai. Devo muito a ele”.

Tal qual os relacionamentos em família, em que, vez ou outra, acontece algum desentendimento, Edna explica que, no dia a dia, houve vezes de brigarem como pai e filho fazem, mas nada que não pudesse ser solucionado. Afinal, o coração dava um jeito de falar mais alto.

“Ele pegava no meu pé, mas quando os fregueses perguntavam por mim e se referiam a mim como filha dele, ele ficava feliz, abria um sorriso de orelha a orelha. Você sentia a felicidade dele. Tenho muita saudade de lá. Quando ele viajava, me dava a chave, cheques assinados. Eu nem dormia com medo de acontecer alguma coisa”.

Engenhoso e talentoso, Edna relembra as muitas teorias que giravam em torno da figura do farmacêutico que tanto curava. “Todo mundo achava que ele era espírita porque ele sentava na escrivaninha e botava a mão na cabeça. Só que ele fazia isso, pensando no que iria receitar. Era católico”.

Lenda ou não, pode-se dizer que algo mágico pairava sobre os balcões de madeira. Afinal, foi lá que a aposentada Nadyr Terezinha Theobaldo Francisco, de 78 anos, ex-balconista do estabelecimento, encontrou sua cara-metade: Valdemiro Francisco, de 68 anos, com quem está casada há 45 anos.

Arquivo pessoal Nadyr Teresinha Theobaldo Francisco – Bruno Avellar

“Trabalhei lá por cinco anos. Só saí quando estava prestes a ter minha filha, Patricia. O Waldemiro trabalhava na Coronel Veiga e ia na farmácia todo dia porque fazia um tratamento no rosto. Se não me engano ele tomava algumas injeções e era eu quem as buscava”.

Juntos há quase meio século, o casal relembra o primeiro encontro, onde, diferente da farmácia, mais surgiram problemas do que soluções. “Eu ia sempre no Sagrado, na missa, então marquei de encontrar com ele lá, só que ele não apareceu. Acontece que ele não conhecia muito aqueles lados, errou e foi na igreja errada. Foi na do Rosário”.

De temperamento forte, Nadyr conta que fez questão de mostrar sua insatisfação na semana seguinte. “Quando ele chegou para tomar vacina e se explicar, eu disse pra ele assim: ninguém é obrigado a apanhar compromisso, mas quando apanha é obrigado a cumprir. Fiquei brava. Não gostei. Marca de sair e logo no primeiro encontro não vai”.

Por sorte, a situação não passou de um desentendimento. Afinal, Valdemiro, na Igreja do Rosário, também achou que tivesse sido deixado de lado, mas ressalta: “era pra ser. Quando eu aparecia na porta ela saía desesperada pra dar um jeito no cabelo, se emperequetar. Não podia ter casado com uma pessoa melhor”.

Trabalho que enriquece a alma

Dizem que o trabalho enriquece a alma e, no caso do “seu Souza”, ajudar o próximo era, de fato, seu principal combustível. Sua neta, a professora Cristiane de Sousa Pinto, de 55 anos, se arrisca em dizer que sua maior paixão foi a farmácia, seguida da esposa, a doce dona Elza.

“Meu avô viveu pela farmácia. Só parou aos 90 anos, seis meses antes de morrer. Eu costumava brincar e dizer que quando ele parasse de trabalhar é que começaria a viver. Meus avós chegaram a completar 65 anos de casados. Ele sempre beijava a mão dela e eu achava aquilo tão bonito. Minha avó dizia que ele era o Clark Gable de Petrópolis”.

Dona Elsa, Cristiane e “seu Souza”. (Foto: arquivo pessoal Cristiane de Sousa Pinto)

Dedicado, o farmacêutico era conhecido, além de sua competência, por sua rotina. Pontual, Cristiane diz que era baseado nele que os comerciantes das redondezas acertavam seus relógios: “Ele era extremamente profissional e pontual. Dizem que o pessoal acertava a hora quando ele passava na rua”.

E a pergunta que não quer calar: de onde veio tanto talento? Por comprometimento ou vocação, a aposentada Marilene Silva, de 79 anos, mãe de Cristiane e nora do farmacêutico, explica que foi ainda criança, aos 12 anos de idade, que “seu Souza” começou a aprender o ofício, em Campos.

“A família era humilde e a mãe teve a ideia de colocá-lo para ajudar numa farmácia, mas acabou que ele descobriu que era muito bom naquilo. Foi uma pessoa que soube viver bem, com o amor que teve pela profissão dele. Uma pessoa realizada e também muito correta”.

Movido pelo amor e carinho, o “seu Souza” tornou evidente que estar vivo nada mais é que fazer sentido a outras vidas. Eterno na memória, se mostrou um amigo dotado de habilidades mágicas, disposto a desafiar e dominar a natureza.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 24/02/2019)