A estrutura era imóvel, mas, de alguma forma, transportava a juventude para novos cenários e hábitos. Ao estilo “diner”, com seus painéis em aço e letreiros em neon, o Mick’s Burger impressionava e agradava a garotada. Salgados ou açucarados, os lanches davam tempero a momentos saudosos que o coração hoje faz questão de despertar.

As paredes ecoavam novidades e, em meio a tantas delas, não raras eram as expressões perplexas de quem visitava a lanchonete pela primeira vez. O psicólogo Fábio Luis de Oliveira Carvalho, de 49 anos, descreve essa “onda de curiosidade” que, rapidamente, tomou conta dos petropolitanos.

“Antes da loja abrir na 16 de Março houve um murmurinho na cidade. Lembro de uns perdidos que entraram e sentaram na mesa achando que apareceria um garçom. Esse conceito de self-service era algo novo, até porque os restaurantes de comida a quilo ainda não existiam na cidade”.

Arquivo pessoal Gilberto de Paula Araújo – Bruno Avellar

Ainda que responsável por implementar hábitos modernos, Fábio explica que, dentro do Mick’s Burger, o atendimento preservava vínculos reforçados pela convivência. “Por ser uma casa local tínhamos familiaridade com os atendentes. Era diferente de outras redes de fast food. Eu também achava interessante poder ver o preparo do que havia sido pedido”.

Rapidamente adotado pela cidade, o espaço se tornou alvo de encontros, dos mais simples, a comemorações de 15 anos. A educadora Alexandra Werneck, de 46 anos, explica que abriu mão de sua festa de debutante para fazer um lanche no Mick’s Burger ao lado das amigas.

“Na época eu estudava no Santa Isabel e ir ali estava na moda. Fui para lá com a minha família e amigas do colégio. Lembro que era muito bom. Sempre fui prática. Nunca fui do estilo princesinha não. E acho bem capaz que eu tenha influenciado minhas filhas porque nenhuma delas fez festa de debutante também”.

A fórmula secreta

Por trás de um cardápio inovador, estava a mente criativa de Gilberto de Paula Araújo. Hoje aos 72 anos, ele relembra os marcos quebrados ao longo das duas décadas em que esteve à frente do empreendimento. Inaugurado em 1984, o negócio tinha seus detalhes, cores e ingredientes devidamente pensados.

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“Todo mundo usava branquinho, amarelinho, azulzinho. E nós entramos com cores bem diferentes, agressivas, fortes: verde e vermelho. E aquilo foi um sucesso muito grande. Sinto falta porque fazia aquilo com muito carinho. Foi uma época muito boa mesmo. Cheguei a ter 130 funcionários”.

Consequência de um alto conceito de qualidade era a grande demanda dos fregueses. Pioneiros na venda de salgadinhos a quilo, Gilberto conta que houve tempos em que vendia 6 toneladas por mês. Isso sem falar no pãozinho de batata, que jamais deixou a boca dos petropolitanos.

Arquivo pessoal Gilberto de Paula Araújo

“O pão de batata levava batata mesmo. Não tinha corante nem nada. A massa levava leite e ovos. Eu vendo tudo, mas não vendo aquele primeiro forninho que assava os pães. Modéstia à parte, fizemos muita coisa boa lá. Aos clientes mais antigos, a gente oferecia a degustação. Chegava na mesa e os oferecia, perguntava se queriam experimentar”.

Quem se orgulha em dizer que recebeu a proposta irrecusável de fazer um ‘test-drive’ dos pratos de Gilberto é o bancário Oreste Antônio Di Gregório, de 53 anos. “Antes mesmo de serem lançados comi o triplo de peru e também aquele suspirão, que vinha numa taça enorme. Lá chegava a ser um ponto turístico porque sempre tinha uma novidade”.

Descrito por Oreste como uma pessoa perfeccionista, esforçada e dedicada, Gilberto ‘deixou sua marca na cidade’. “Me lembro com muito carinho da lanchonete. Lá dentro o Gilberto confeccionava tudo o que podia. Ele tinha prazer em fazer o que fazia e passava isso para o produto, que tinha uma qualidade fantástica. O cara colocava o coração dele lá”.

Como aponta o cirurgião-dentista Cid da Cruz Loureiro Netto, de 51 anos, o espaço foi “importante para socializar as pessoas que hoje tem entre 40 e 50 anos”. Tanto que o médico fez questão de guardar alguns guardanapos do estabelecimento: peças que integram seu passado.

Arquivo pessoal Cid da Cruz Loureiro Netto

Materiais ou não, as memórias vinculadas ao Mick’s Burger se confundem com uniões e histórias improváveis que, assim como a fatia de abacaxi no carro-chefe da casa, iam contra a razão e resultavam numa sensação surpreendente.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 13/01/2019)