Na comanda, a passagem de embarque para o porto-seguro dos clientes. No cardápio, o acolhimento como prato de maior saída. A placa dizia Bom Beure, mas o coração insistia em dizer o contrário. No Mauricio’s, a conta vinha acompanhada por gargalhadas e sob a garantia de que as interações nutridas pelo ambiente não tinham preço.

Dizem que os segredos de restaurantes, ficam nos restaurantes, mas é seguro dizer que alguns deles foram embalados para viagem. Para começar, as várias especulações sobre o significado de Bom Beure, nome inicial do estabelecimento. Quem esclarece a questão é Maurício Rellan Paton Calero, de 54 anos, filho do espanhol que conquistou os brasileiros.

“Tem gente que confunde porque beurre em Francês é manteiga, mas no dialeto da terra do meu pai, nascido lá em Valência, na Espanha, Bom Beure significava boa comida. O nome mudou porque o pessoal ia mesmo era no Bar do Maurício”.

Seu filho explica que, antes de abrir o bar e restaurante, era na pintura dos letreiros de caminhões que o patriarca da família trabalhava. “Quando chegou no Brasil na década de 50, ele foi para o Rio de Janeiro. Lá pintava os letreiros daqueles caminhões de antigamente dos refrigerantes da Crush, Grapette”.

O instrumento de trabalho mudou, mas o conceito permaneceu o mesmo. Do pincel aos talheres, o importante era levar cor às vidas dos fregueses. Bem sucedida, a missão fez da Rua 16 de Março referência nas casquinhas de siri e batidas, que iam desde limão, maracujá, pêssego, amendoim e coco, a capim gordura.

“Eu era moleque, mas me lembro que o pessoal da Bossa Nova entrava lá direto: Garrincha, Elza Soares. Tinha uma sopa no cardápio que levava o nome do Ronaldo Bôscoli. Meu pai a nomeou assim porque era muito amigo dele. O Ronaldo chegava lá e pedia para fazer do jeito dele’”.

Sob o mesmo teto

Arquivo pessoal Maurício Rellan Paton Calero – Bruno Avellar

Point de Petrópolis, era no Mauricio’s que se reuniam universitários, celebridades, casais. Um ex-frequentador, que preferiu não se identificar, revelou que foi numa das mesinhas da ala do restaurante que pediu a namorada em noivado. “Não foi nada de excepcional”, garante, apesar do local automaticamente remetê-lo às memórias daquele dia.

“O escolhi porque era o ambiente mais propício para a coisa. O pessoal que o frequentava era uma turma mais tranquila, mais quieta. Apenas a dois, houve um drink, uma troca de alianças, e a assunção de um compromisso que dura até hoje. Aquele dia significou pra gente o que vem significando há 33 anos”, afirma.

E eram episódios como esse que diferenciavam a rotina do estabelecimento e tornavam cada dia uma surpresa. Imensamente querido pelos clientes, o barman José Romão, mais conhecido como Ramón, afirma que o melhor da profissão é se deixar aproximar do público e tê-los ao seu lado.

“Trabalhei no Mauricio’s por 26 anos. Me lembro das brincadeiras que a gente fazia porque aquilo lá era uma família. Ali eu vi namoro, casamento. Agora trabalho no Peró e recebo a quarta geração da clientela. A gente tem um carinho. Eles me acompanham e onde eu vou eles vão atrás”.

Lembrado pelos tiragostinhos que servia, como o amendoim torrado com sal e a torrada com picles e azeitona, o aposentado de 66 anos se orgulha em dizer que carrega traços daquela época. “Ao invés do senhor Maurício, que era espanhol, falar Romão, ele dizia Ramón. Até hoje o pessoal me chama assim e até de Maurício, por causa do tempo em que trabalhei lá”.

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Bom papo e boa comida

“Passei parte da minha vida lá e deixei metade do meu salário também, mas valeu muito a pena”. Com uma pitada de saudosismo, é assim que Nelson Paiva, de 66 anos, se refere ao recinto que o acolheu em seus anos de estudante de engenharia em Petrópolis. Vindo de Niterói, se considera um homem de sorte por ter feito parte da família Mauricio’s.

“Já tive encontros em que ficava relembrando histórias que tinham se passado no Mauricio’s. Teve um final de semana em que entrei lá duas horas da tarde e saí três horas da manhã. E o Maurício tinha uma característica: não tirava a cerveja de cima da mesa para a pessoa nunca ter dúvida do quanto havia sido consumido. Naquele dia tinham três mesas com garrafas”.

Já se passaram 20 anos desde que o estabelecimento fechou as portas. Para seus ex-frequentadores, o tempo pode tê-lo levado, mas as raízes do que foi cultivado permanece. O aposentado Bruno Wilder, de 56 anos, atribui ao restaurante sua base gastronômica. Rapaz, à época, teve lá a oportunidade de tomar sua primeira sopa Leão Velloso.

“Hoje sou bom cozinheiro, preparo as casquinhas de siri, bem parecidas. O Polvo à Provençal é minha especialidade. Eu era ávido por uma novidade. O Mauricio’s, com certeza, está nos meus primórdios. Até hoje reproduzo aquela cultura única e especial. Aprendi com aqueles paladares”.

Regidos a boa companhia, os pedidos no Mauricio’s compartilhavam o mesmo sentimento: era-se feliz e a clientela sabia disso.

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(Matéria publicada no Jornal Tribuna de Petrópolis em 02/12/2018)