Mais do que um ponto de encontro, a loja simbolizava um canto de encanto pelas trocas de experiências que lá ecoavam. Os terapeutas ficavam por trás dos balcões e, ao fim de cada conversa, a única prescrição era que o cliente retornasse. Afinal, a assiduidade era a regra de ouro que levava ao autoconhecimento no escritório da vida que era a Casa Itararé.

As conversas tinham como ponto de partida os tradicionais salgadinhos e as famosas batidas do ‘Costinha’, nos sabores amendoim, limão, coco e pêssego. Márcia Cristina Costa Faria, de 55 anos, relembra a história do pai, Walter Costa Faria, barman que por 40 anos fez história no estabelecimento.

“O bar vivia cheio e era muito bem frequentado. Lugar certo para encontrar amigos no fim de tarde. Lá, pobres e ricos eram iguais porque meu pai orquestrava o ambiente. Me lembro que em cima da caixa registradora ficava uma taça de prata porque ele ganhava muita gorjeta dos fregueses”.

A psicóloga Sandra Costa Faria, de 60 anos, irmã de Márcia, conta que, na Itararé, era o pai quem exercia o papel de psicólogo no bar, apesar de nunca ter se considerado como tal. Sempre à vontade, de camisa social de manga curta e caneta no bolso, o Costinha garantia um bom papo.

“Ele era extremamente dedicado e feliz lá na loja. Gostava do trabalho que fazia e costumava falar que o bar era o escritório da vida, onde conversa-se sobre a vida, a rotina e as ideias de cada um. De intelectuais a pessoas mais simples, todos gostavam muito do local, da acolhida. E ele também, de servir e compartilhar”.

Com uma legião de fãs, difícil, de fato, era encontrar alguém que resistisse aos encantos do senhor Costa e da Itararé. O aposentado Sergio Simoni, de 75 anos, conta que a tradição de comprar na loja veio de seu pai que, aos sábados, comprava os doces, salgados e frios do que, segundo ele, assemelhava-se a uma ‘Casa Colombo em Petrópolis’.

“Já adulto conheci as famosas batidas de seu bar anexo, principalmente a de maracujá. Cheguei a ver o Garrincha na Casa Itararé. Ele subia a Serra de fusquinha e levava garrafões de batida, que eram maravilhosas. O vi colocando os garrafões no fusca”.

Reprodução Internet – Alexandre Carius

Um pedacinho de Portugal no Brasil

Basta o nome ‘Casa Itararé’ ser pronunciado para uma avalanche de boas lembranças ser trazida à tona. Regido pela dupla de portugueses Casemiro Forte e João Marques de Macedo, o negócio foi, por décadas, sinônimo de recanto em Petrópolis. Gertrudes Siems Forte, de 92 anos, foi casada com Casemiro e relembra o ilustre passado do empreendimento.

“Os veranistas eram os que mais movimentavam Petrópolis. Tínhamos empregados para fazer as entregas e muitas vezes eu ia com eles, só para conhecer as casas. Conheci a casa da Ruth e do Roberto Marinho assim. Outro freguês da Itararé era o doutor Carlos Lacerda”.

Questionada sobre as delícias que eram vendidas na loja, Gertrudes cita os crocantes biscoitos, as empadas, pastéis e os gostosos salgadinhos que, segundo ela, eram famosíssimos’. Sua filha, a professora Marielsa Forte Mazzeu, de 66 anos, enfatiza a coxa-creme, ainda hoje lembrada pelos petropolitanos.

“Era o forte da casa, junto do camarão empanado e da salsicha. Também eram vendidos muitos produtos de delicatèssem como o bacalhau importado, queijos da melhor qualidade, pães alemães que eram feitos na Padaria Guarani e o famoso Bolo Sion”.

Como explica Marielsa, o Bolo Sion carrega história.

“Feito de massa folhada e recheado com creme, era encomendado pelas freiras do Colégio Sion para os aniversários das alunas internas. Além disso, no final do ano a Itararé fazia uma média de 300 bolos para dar de presente para os melhores fregueses. Era o presente de Natal e uma briga porque todo mundo queria ganhar”, diz rindo.

De acordo com Marielsa, tamanha era a assiduidade dos clientes que alguns dos produtos já tinham lista fechada de compradores. “A Padaria Guarani era típica de Petrópolis e fazia pães tipicamente alemães que já tinham clientes certos para comprarem e buscarem na Casa Itararé no dia da entrega”.

Vivências e experiências

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Descrito como único, o local foi palco de vivências que fazem jus à atmosfera acolhedora do estabelecimento. Marcianita Ventura da Silva Ferreira, de 54 anos, comemora os 30 anos de casada e aponta: “meu primeiro encontro com meu namorado, hoje marido, Pedro Paulo Ferreira Pai, aconteceu na Casa Itararé”.

E a data ficou na memória: 15 de junho. Marcianita explica que, depois de noiva, o objetivo era se casar nesse mesmo dia. “Como não conseguimos essa data nos casamos em 22 de junho. Ir na Casa Itararé era um programa tradicional. Eu chegava lá, pedia uma coxinha e tomava uma Coca servida em garrafa de vidro”.

Simples ou extravagantes, os pedidos na Casa Itararé eram servidos com capricho e afeição. Na loja, tão fluído quanto o passar do tempo eram as conversas, que dela faziam uma escola de ensinamentos e valores.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 07/10/2018)