Por trás de sua exuberância, fragilidade. Poesias da natureza, elas demandam atenção e manutenção. Como no cultivo de um relacionamento, a morada das orquídeas deve ser escolhida com cautela. Aos cuidados do senhor Herculano Burger, as flores reforçavam laços de uma beleza magnética.

O gesto é tão antigo quanto o tempo, mas nunca foi deixado para trás: como prova de amor, um buquê de flores. No caso da avó do arquiteto e fotógrafo Helcio Mano, de 66 anos, algumas dezenas de dúzias.

“Quando minha avó, Dora Bentes, fez 80 anos, meu tio comprou 80 dúzias de rosas na flora A Orchidea. Nunca havia sido feito um pedido daquele tamanho, então tiveram que recolher as flores pelas lojas da cidade. Eles levaram aos poucos e as distribuíram entre a casa da minha tia e a minha, que ficava do outro lado da rua”, relembra Helcio.

Igualmente apaixonado pela família e ciente da alegria que um simples gesto pode causar, o aposentado Sidnei Quadrelli, de 68 anos, conta que era também à flora A Orchidea que recorria quando pensava em presentear a namorada, hoje esposa, com as clássicas rosas vermelhas.

“Não sei hoje, mas qual mulher não gosta de receber rosas quando os dois estão apaixonados? O senhor Herculano gostava muito quando levávamos as flores e minhas compras lá eram frequentes. Às vezes eu pedia para entregá-las na casa dela ou no colégio em que ela estudava. Em setembro fizemos 45 anos de casados e gosto de fazer isso até hoje. No dia em que me casei, me casei para sempre”, diz Sidnei.

O companheiro de vendas

Fotos: Arquivo pessoal família Burger – Bruno Avellar

A loja não era grande e talvez por isso o companheiro do senhor Herculano disputasse lugar com as flores. Simpático com os fregueses, o canarinho era a estrela da flora. Uma das clientes que tinha a atenção roubada por ele sempre que entrava no estabelecimento é a professora Annelise Kersten, de 64 anos.

“Fui professora dos Canarinhos de Petrópolis, então sempre reparei nos passarinhos. O que chamava atenção nesse é que o penteado do bichinho parecia com o do dono. Engraçado que às vezes nós lemos matérias de cachorros que são parecidos com os donos, mas passarinho eu nunca tinha visto. Era um caso excepcional!”, relata rindo.

Além do senhor Herculano, que se alegrava quando os clientes saíam da flora com flores na mão, o canarinho enchia os pulmões de ar para cantar sempre que avistava um freguês conhecido entrando na loja.

“Era uma gracinha! Quando passei a frequentar o grupo do movimento Hare Krishna eu ia muito lá. Tomei a incumbência de recolher as sobras de pétalas de rosa que ele nos dava para confeccionarmos cordões, guirlandas e colares de flores para os encontros dos devotos”, diz Annelise.

Beleza e delicadeza

Apelidado de o ‘poeta das rosas’, o senhor Herculano era o mensageiro que, sempre que as palavras fugiam, falava através das flores. Shirlei Burger da Silva Pinto, de 83 anos, relembra os 60 anos em que trabalhou com o pai na flora, onde, mesmo sem comprar, as pessoas saíam com uma rosa na mão.

“As principais datas de venda incluíam o dia dos namorados, o dia das mães e o dia da secretária, 30 de setembro. Os bancos encomendavam oito, dez dúzias para dar às funcionárias e fregueses. Muita gente também mandava fazer buquês de noiva de orquídea. Uma vez fizemos 16 ramos no mesmo dia”, afirma orgulhosa.

De acordo com ela, foi no Rio de Janeiro que o pai teve o primeiro contato com a floricultura, e de onde veio também seu gosto pelos esportes. “Lá ele entrou pro clube do América que, naquele tempo, tinha a melhor sede do Rio. Meu pai foi tricampeão invicto de Petrópolis no técnico. Lidou com o Cascatinha, o Petropolitano e o Serrano”, completa a aposentada.

Um dos funcionários da flora que sentiu de perto o carinho e a paixão do senhor Herculano pelas flores é o tecnólogo em radiologia de 53 anos, Fernando Carvalho. Tendo trabalhado na loja por sete anos, acabou moldado pelo gosto que o patrão tinha pelo ofício.

“Era uma pessoa de caráter invejável. Muito do que sou hoje aprendi com ele. O maior desafio para a gente era a época do Dia das Mães, quando tirávamos os espinhos de duas mil dúzias de rosas. Com quatro anos de flora eu já conseguia, praticamente, dominar tudo: buquês de noiva, ornamentações de igreja”, revive Fernando.

Senhor Herculano Burger em atividade. (Foto: arquivo pessoal família Burger)

Sonhos cultivados

A flora era lembrada em ocasiões especiais e, no caso da empresária Rosangela Lacerda, de 57 anos, num dia que ficará para sempre gravado em sua memória. Em seu casamento, com a ajuda da cunhada, Rita Sabrá Cestari, e de alguns familiares, ganhou o buquê de noiva com que sempre sonhou.

“Me lembro que ela estava passando por um momento de dificuldade e não pôde ter o vestido que gostaria de ter. Descobrimos sua paixão por orquídeas e a agraciamos com um lindo buquê branco. Ela ficou imensamente feliz. Foi um desejo realizado”, explica Rita.

Rosangela conta que já havia comprado flores na feira para improvisar um buquê no próprio dia da cerimônia e que, além de emoção, acredita que o ramo lhe proporcionou boas energias na união: “Parece que deu muita sorte. Tivemos dois filhos maravilhosos, Juliana e Leonardo, e em outubro faremos 35 anos de casados, com muito amor envolvido”.

Tais quais a orquídea, os relacionamentos floresciam a partir da flora e faziam da palheta de cores e espécies, símbolos da pureza dos sentimentos.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 30/10/2018)