Mais do que sinônimo de despedida, ela exprime liberdade e expectativa. A chegada da locomotiva faz imaginar, mas mais do que isso, é a encruzilhada de trilhos que permite acreditar no recomeço. E foi assim, na esperança de decidir o próprio futuro, que um casal de italianos deu início, na estação de trem de Cascatinha, à venda das massas Baccherini.

Neto da dupla, Mário Luiz Baccherini, de 61 anos, conta que, inicialmente, era a necessidade de sustentar os dez filhos que movia o empreendimento dos imigrantes: Elizabeta e Ernesto Baccherini.

“Minha avó criava galinha em casa e, pensando em garantir uma renda extra, passou a fabricar massa. Já meu avô, tecelão na Companhia Petropolitana, vendia as mercadorias na passagem do trem e trabalhava como jardineiro nas horas vagas. Foi tudo conquistado com muito sacrifício principalmente deles, que trabalharam por 50 anos das quatro da manhã às sete da noite”.

Arquivo pessoal Mário Luiz Baccherini – Bruno Avellar

De acordo com Mário, uma das pessoas para quem Ernesto prestou serviços de jardinagem, era o jornalista e empresário Irineu Marinho a figura que teria sido responsável por deslanchar o negócio da família.

“O que me contavam é que o senhor Marinho teria comido e adorado o macarrão que minha avó fazia, passando a distribuí-lo para os amigos. Meu pai, Mário Nicola, e meu tio, Domenico, ainda crianças, desciam de carona nos caminhões da fábrica de papel, que ficava ali no Itamarati, e faziam as entregas no Rio”.

Com qualidade e preço inconfundíveis, a marca logo se tornou um orgulho para a cidade. Mário trabalhou no negócio por 40 anos e explica que, mais ainda do que a receita, foi seu modo de execução vindo da Itália que os levou à produção de 600 toneladas de 25 diferentes produtos por mês, com a ajuda de cerca de 246 funcionários.

“A Baccherini nunca teve estoque, tamanha a aceitação que a mercadoria tinha. Chegamos, inclusive, a ganhar um prêmio de qualidade da França, o International Europe Award for Quality. Eles recolheram amostras de produtos nos mercados, as levaram para laboratórios e dali houve uma comissão julgadora”.

Relembrando o carinho que o povo petropolitano tinha pelas mercadorias, Mário cita um anúncio da Baccherini que, veiculado na Petrópolis Rádio Difusora, fazia sucesso entre a audiência.

“No programa Werneck Filho tinha uma propaganda muito interessante do Tarzan. Eles anunciavam uma música e diziam: acaba de chegar em Petrópolis um Tarzan! Será que ele se alimenta de frutas? Aí um coro respondia: não! Depois um homem completava: ele se alimenta das deliciosas e nutritivas massas Baccherini”, revive rindo.

Nas prateleiras dos supermercados, as massas Baccherini. (Foto: arquivo pessoal Mário Luiz Baccherini)

Com a mão na massa

Para alguém que trabalhou por 30 anos na fábrica das massas Baccherini, é esperado que a enumeração das etapas de produção seja uma tarefa fácil. Para o aposentado José Luiz Pereira da Silva, de 61 anos, o desafio não só é realizado com naturalidade, mas, acima de tudo, com um carinho e saudosismo inigualáveis.

“Chegavam 500 sacos de trigo. Desses, 50 quilos eram levados para a masseira. Dali ia para a batedeira, para o cilindro e, por último, para a cortadeira, onde as moças faziam as dobras com as mãos. Iam pilhas de 40 tabuleiros para a secagem, onde ficavam por uns dois dias. Quando chegava na rua era só sucesso”, diz José Luiz.

Contratado aos 15 anos de idade, ele conta que os setores em que mais passou tempo foram os da caldeira e secagem dos produtos. Antes da empresa fechar, era José Luiz o responsável por gerenciar o processo de produção. Hoje ele se orgulha em dizer que montou o próprio negócio de mini pizzas, sucesso no Humberto Rovigatti.

“Nunca abandonei as massas. Todo fim de semana eles nos davam macarrão para levarmos para casa. Às vezes eu levava a massa fresca também. Agora faço mini pizzas. Já vai fazer 14 anos. A Baccherini mostrou que é com o pequeno que se sobe, com simplicidade e humildade”.

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Buon appetito!

“Na hora em que eu vi a embalagem, chegou até a me doer o peito de saudade de quando eu era pequena. Vêm todos aqueles filmes na cabeça”. É esse o efeito da imagem que, aos olhos da desenhista técnica Luciana Périco Machado Moura, de 47 anos, traz de volta momentos em família que se davam em torno das massas Baccherini.

“Lembro que quando meu pai fazia compra, eram seis ou setes fardos daquele de macarrão porque somos uma família grande, de nove irmãos. Meus avós ainda moravam perto da gente e comiam na minha casa. Hoje em dia eles já não estão vivos, então aí é que a gente sente falta mesmo”.

Moradora do Alcobacinha, Luciana ressalta o carinho que os moradores da região tinham pela família Baccherini e o prazer que tinham em valorizar a produção local. “Até fechar a fábrica, meus pais só usavam os produtos Baccherini. Foi uma perda muito grande para o Itamarati e para a cidade”.

Como descreve o aposentado Cid Clavery Caldas, de 69 anos, o apreço pelas mercadorias se dava por todos os cantos. No armazém do pai, localizado na Estrada Itaipava – Teresópolis, eram vendidos cerca de 10 quilos tanto de spaghetti, quanto de goela de pato’ por semana.

“A clientela adorava a marca, quase única na época. Eu trabalhava no atendimento de balcão e também nas entregas em domicílio, de bicicleta. A embalagem do spaghetti de 1 kg era comprida, mais ou menos o dobro do comprimento das embalagens atuais. As massas eram frágeis e requeriam um cuidado especial no transporte. Não podia quebrar, senão o cliente reclamava”.

Como alguém que espera ansioso pela chegada do vagão, assim que as massas desembarcavam nas casas dos fregueses, a sensação era de zelo, de uma quase obrigação em acolher a carga que, junto da família Baccherini, trazia um pedacinho da Itália consigo.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 23/09/2018)