As canetas-tinteiro faziam sucesso na Papelaria Esteves: local em que a mente do freguês se assemelhava aos princípios do instrumento. Com precisão e emoção, o cliente era capaz de manifestar na escolha das mercadorias traços de sua personalidade. Assim como na caligrafia, pouco a pouco os itens se faziam marcantes nas minuciosidades.

Museu Imperial/Ibram/MinC – Bruno Avellar

O escritor Ivan Lima, de 70 anos, conta que a loja teve um papel imprescindível no desenvolvimento de seu lado artístico. Foi lá que o também arquiteto e fotógrafo teve o primeiro contato com os lápis de cor Caran d’ache que o acompanharam pelos anos afora.

“Era um lugar para se realizar sonhos. Estávamos acostumados com lápis de cor normais, mas lá existiam latas grandes de Caran d’ache. Os esquadros e tudo o que havia lá era muito forte pra mim, tanto que, com mais ou menos 20 anos, fui pro Rio fazer arquitetura”.

No tempo em que esteve fora de Petrópolis, Ivan chegou a estudar na França e afirma sem titubear: “minha cultura francesa veio, em parte, pela Papelaria Esteves. Sempre desenho com os lápis daquela época e tenho, até hoje, uma pequena caixa de Caran d’ache comprada na loja. É um lugar que dá muita saudade”.

Ivan voltou a morar na cidade há um ano e admite que, bem no fundo, esperava encontrar a papelaria que tanto o marcou aberta. Assim como ele, quem também teve os dias coloridos pelo estabelecimento é a secretária executiva Angela Badaró que, aos 63 anos, se encanta ao relembrar os decalques a base d’água vendidos na Esteves.

“Nos meus tempos de escola, fazer trabalho era o que eu mais gostava. Na papelaria existiam decalques de todos os tamanhos relacionados à história e geografia. Comprávamos e colávamos no papel almaço. Havia também os floridos que usávamos para enfeitar as páginas dos cadernos. Ficava lindo e era muito legal”, explica contente.

De olho no calendário

Se no cotidiano a Papelaria Esteves era capaz de fazer do ordinário algo notável, que dirá em datas especiais. O aposentado Paulo Roberto Vieira, de 72 anos de idade, rapidamente a associa aos tempos de Páscoa.

“Minha avó era descendente de alemães e tinha o costume de tingir ovos de galinha na Páscoa. Me lembro de ir com ela na Papelaria Esteves para comprar a tinta. Fazíamos um ninho com papel de seda e flores quaresmeiras, o colocávamos aos pés da cama e, no domingo, íamos lá porque o coelho tinha passado”.

O tempo passou, mas não levou consigo a tradição da matriarca, mantida até hoje. “Mantenho o costume. Houve uma época em que cozinhávamos os ovos com papel crepom. Agora, como já não se encontra mais a tinta, usamos muito a casca da cebola, que dá aquele tom marrom”.

Igualmente preocupada em manter vivo o legado deixado pela família é a aposentada Sônia Maria Coutinho Duriez Esteves Pereira, de 73 anos. Ela é filha do português João Duriez Esteves Pereira, o senhor Esteves que por 33 anos ficou à frente da papelaria.

“Para papai, tudo era motivo de festa. Era uma criança grande. Em época de São João ele mandava fazer balões, os soltava e neles colocava papéis com o endereço da Papelaria Esteves que davam direito a prêmios, como viagens”.

E como falar em datas comemorativas sem mencionar o Natal? De acordo com Sônia, as bolas de enfeite e os presépios eram assunto sério na loja. Encomendados e comprados com um ano de antecedência, eram uma das especialidades da casa.

“Tenho um presépio de 120 peças até hoje. Chega o Natal e ponho 300 lâmpadas na porta do meu apartamento e faço uma árvore diferente a cada ano. Papai não teve estudo, mas lia muito e era uma enciclopédia ambulante. Adorava o que fazia e tinha um carinho muito grande pelo trabalho”.

Ele se orgulhava do império que havia construído, o que se comprova num extenso livro formado por recortes de jornal que mencionam a loja. Datadas a partir de 1927, algumas páginas contém ainda anúncios e cartões comemorativos da papelaria.

Aspectos curiosos se destacam pelas folhas como o fato de que, aos 22 anos, o senhor Esteves se tornou o mais jovem comerciante da cidade e que, em 1940, a loja organizou uma ‘gigantesca exposição’ de porta-retratos. Ela era a única a produzir carimbos de borracha na cidade e, na década de 20, recebia aulas de confecção em papel crepom e corda para damas, se tornando também, mais tarde, ponto de venda de passagens da companhia aérea Air France.

Cartão ilustrado da papelaria. Arquivo pessoal Sônia Maria Coutinho Duriez Esteves Pereira

O grupo Esteves

Com filiais em Três Rios e Juiz de Fora, a papelaria contava ainda com uma gráfica que, segundo Sônia, teve início nos fundos da loja, mas precisou ser realocada para a Rua Paulino Afonso para suprir as demandas dos fregueses.

A aposentada Léa Eliza Barcellos Guimarães, de 76 anos, trabalhou por cerca de 20 anos na papelaria, tendo lá seu primeiro emprego. Ela conta algumas de suas lembranças acerca do dia a dia do estabelecimento.

“O senhor Esteves foi meu primeiro chefe e como um pai pra mim. Ele ficava no caixa, aos fundos da loja, com seu cigarrinho de palha. As pessoas não podiam ficar de fofoca. Se alguém estivesse conversando ele nos olhava por cima dos óculos e dizia: o que falta, filha? Era tão engraçado e carinhoso”, diz rindo.

Léa destaca também o aniversário da papelaria, que acontecia em outubro. “Ao longo do mês o senhor Esteves fazia promoções: dava brindes, potes de vidro, compoteiras. Os vendedores também eram presenteados. Eu ganhei canetas Esterbrook, Parker, Compactor!”, exclama orgulhosa.

Como os cartuchos das canetas, as memórias da Papelaria Esteves são frequentemente recarregadas e, dependendo da forma como tenham sido armazenadas, eternizadas.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 16/09/2018)