Os telefones tinham quatro dígitos, as ruas não tinham semáforos e ‘a simplicidade era a maior forma de sofisticação’. Nas casas comerciais, a confiança prevalecia e, na Padaria das Famílias, não podia ser diferente. Com suas carroças de entrega de pães, fogão à lenha e a tradicional ‘cadernetinha’, o conceituado estabelecimento era ponto de parada obrigatória.

O cheirinho da padaria fazia sucesso entre aqueles que passavam pela fachada, mas tão importante quanto a qualidade dos produtos era a figura do senhor Carlos Oscar Stumpf. Tendo trabalhado na Padaria das Famílias dos 16 aos 68 anos de idade, era ele um dos principais responsáveis por entregar os pães na carroça.

“Os pães eram entregues de casa em casa no cesto. Não tinha buzina. A clientela já era certa. Outras pessoas avistavam a carroça, agora exposta no Museu Imperial, e iam comprar o pão. Todo final do expediente ela era guardada junto com o burro onde hoje está situado o posto de gasolina da Rua Teresa”, diz Rosangela Stumpf, neta de Carlos.

Museu Imperial/Ibram/MinC – Bruno Avellar

Ronsagela conta ainda que o avô era conhecido por sua habilidade em domar os burros. “Ele pegava burro bravo e amansava pela Rua Teresa afora para colocar na carroça. Os nomes dos burros com que ele trabalhava eram Roncoro, Rosada e Boneca”, revela.

Lembrado com muito carinho por aqueles que o rodeavam, Carlos garantiu que valores como a determinação se fizessem presentes na família.

“Meu avô é um orgulho porque, apesar de ter parcos recursos, nos sustentou com seu trabalho, hoje reconhecido pela sociedade como o último a exercê-lo em Petrópolis daquela forma. Tenho pena, porque fui a primeira da família a me formar com muito sacrifício e, três meses antes da minha formatura, em dezembro de 1987, ele faleceu”, expressa a advogada de 54 anos.

 

Museu Imperial/Ibram/MinC – Bruno Avellar

Gerenciado pelas famílias Bastos e Eiras, o negócio, que teve início em 1853 na Avenida Marechal Deodoro, tinha ainda outras duas filiais como explica Glória de Andrade Peixoto, filha de um dos sócios, Domingos Bastos.

“Existiam três padarias: a Cruzeiro, na Rua João Pessoa, esquina com a Rua 16 de Março; uma na Padre Feijó, no Alto da Serra e a principal era essa na Marechal Deodoro. Meu pai veio de Portugal com oito anos e foi criado na padaria de um amigo da família. Foi um homem muito conhecido, relacionável”, diz ‘Glorinha’, hoje aos 85 anos.

Além dos irmãos de Glória que, segundo ela, trabalharam no empreendimento, quem também teve a oportunidade de vivenciar o dia a dia da padaria é Milton Eiras Duarte, de 86 anos. Sobrinho de Constantino Eiras, Milton conta que auxiliou os tios nas três filiais cujas propagandas anunciavam uma ‘produção esmerada e entrega rápida a domicílio’.

“Eu fazia de tudo. Ajudava um mês em uma, outro mês na outra, onde meus tios achavam que era mais legal. Ao mesmo tempo em que tinha o carro para entregar pão em casa, existiam as carroças, que eram três ou quatro. Houve uma época em que teve até sorveteria lá. Foi por pouco tempo, não sei quando, só me lembro que levava picolé pra casa”, diz rindo.

Milton recorda ainda o elo de confiança mútua que existia com os clientes. “O mais interessante na Padaria Padre Feijó era que, por causa das fábricas da região, quase todos os funcionários compravam lá. Alguns não pagavam mensalmente, pagavam no fim do ano. Isso eu vi muitas vezes. O freguês é que chegava e dizia quantos pães tinha comprado por dia, fazia as contas, levava o dinheiro e deixava lá. Falando isso agora parece até brincadeira, é inacreditável. Hoje em dia a gente nem sonha com isso”.

Para Paulo Cesar Rabello, frequentador da sede em questão, o ‘sistema de crediário’ era a grande inovação da Padaria das Famílias.

“Você ia anotando na cadernetinha que era como um talão de cheques e, ao final do mês ou da quinzena, prestava conta daquilo que tinha sido comprado, basicamente pão e leite. A turma tinha medo de ficha suja. Quando os funcionários das fábricas recebiam, eles mandavam os filhos pagarem a conta na padaria. Aí a criança voltava com um pacotinho de bala. Era uma forma de agradecimento e a garantia de que o crédito continuava vigente pro mês seguinte”.

Cerca de 40 anos se passaram desde que a sede fechou suas portas e deu lugar ao Edifício João Paulo I. Apesar disso, a sensação de acolhimento que se fazia presente na atual Rua Marechal Deodoro, número 26, permanece. Junto dela, as emoções de um local cuja simplicidade reconhecia os fregueses como parte de uma única grande família.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 01/07/2018)