Petrópolis Sob Lentes

Um blog sobre lentes dotadas de memória e história

No coração do Centro Histórico, o Obelisco

O ano era 1957. Uma multidão ocupava quase toda a extensão da avenida. As sacadas, marquises e até telhados dos prédios abrigavam os espectadores do que foi definido como o maior acontecimento do município até então: a comemoração do centenário da lei que elevou Petrópolis à categoria de cidade e que culminou na inauguração do Obelisco.

Museu Imperial/Ibram/MinC

‘Uma festa empolgante e inesquecível’. ‘Jamais se viu na rua tão grande massa humana’. ‘Uma vitória de Petrópolis’. Eram essas as frases que estampavam as manchetes dos jornais locais no dia primeiro de outubro de 1957, dois dias após as solenidades que transformaram a antiga Avenida 15 de Novembro e a Praça Dom Pedro no que a imprensa da época chamou de ‘uma verdadeira apoteose’, tendo em vista que cerca de 30 mil pessoas estiveram reunidas na região.

Dentre os milhares presentes estava Paulo Roberto Martins de Oliveira, atual membro do Instituto Histórico de Petrópolis.

‘Na época eu tinha apenas 15 anos, mas os principais acontecimentos da celebração do dia 29 de setembro ficaram em minha memória. Lembro-me, por exemplo, que naquele belíssimo domingo ensolarado houve dois espetáculos por parte de acrobatas alemães que atravessaram do edifício Arcádia ao Grande Hotel sobre um cabo de aço. Foi um momento de grande emoção. Realmente espetacular’, relembra.

Museu Imperial/Ibram/MinC – Alexandre Carius

Com direito a queima de fogos de artifício na Praça Visconde de Mauá e a um desfile da banda do Corpo de Fuzileiros Navais, as festividades contaram ainda com a presença de Chefes dos Governos Federal e Estadual, incluindo o até então Presidente da República, Juscelino Kubitschek, responsável por inaugurar as obras de urbanização do centro comercial de Petrópolis e o Obelisco.

‘Foi uma festa fantástica que contou com a presença do presidente e também do prefeito da época, Flávio Castrioto. Eles inauguraram as obras principais do Centro como os balaústres que vemos até os dias de hoje nas beiras dos rios. Houve uma participação muito grande da população. Inclusive, naquele dia tive que ir a pé para a cidade porque os ônibus estavam lotados. Foi algo incrível e totalmente ímpar para Petrópolis já que até aquele momento eu não havia visto nada parecido’, revela Paulo Roberto.

O monumento, em agradecimento às contribuições das primeiras famílias de colonos que aqui se estabeleceram, foi construído na ponte que ficava sobre a confluência dos rios Palatino e Piabanha na Avenida 15 de Novembro, atual Rua do Imperador.

Museu Imperial/Ibram/MinC – Bruno Avellar

‘A ideia era perpetuar os nomes daqueles que ajudaram a construir a cidade, mas houve um engano e acabaram sendo incluídos portugueses e italianos quando, na verdade, a única colônia em Petrópolis foi a alemã, contratada pelo governo da província do Rio de Janeiro para aqui se estabelecer. O deslize seguiu anos afora até que em 1995, na época do sesquicentenário, fui convocado a dar continuidade ao trabalho de genealogia dos colonos, iniciado por Carlos Grandmasohn Rheingantz. E assim foi feito. No ano seguinte trocamos as placas do monumento, desta vez com as 457 famílias colonizadoras’, reforça o membro do Instituto Histórico de Petrópolis.

Como todo grande projeto, a construção dividiu opiniões naquele tempo, já que muitos a viam como uma tentativa de modernização que descaracterizaria a imagem da cidade. Fosse a favor ou contra, a verdade é que logo que inaugurado, o Obelisco conquistou seu lugar em Petrópolis, sendo recebido com ‘espontâneas e significativas palmas’, segundo os repórteres. Agora, 75 anos depois, é inegável que a Cidade Imperial não seria a mesma sem ele.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 16/03/2018)

 

Paulo Roberto faleceu no dia 03/05/2018. O conheci por pouco tempo, mas não há dúvidas quanto à falta que fará. Mais do que um historiador, era alguém disposto a ensinar. Poder entrevistá-lo foi, sem sombra de dúvida, o primeiro passo na construção deste projeto.

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  1. Luiz Frango

    Uma pequena correção.
    O cabo de aço onde os Zugspitz Artisten alemães fazim as apresentações unia o Teatro D . Pedro ( e não o Grande Hotel) ao Ed. Arcadia . Eles fizeram varias travesias , durante alguns dias passando inclusive com uma motorcicleta.
    Assisti o obelisco ser construido, eu morava ao lado do Grande Hotel.

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