Relativo ao que só existe em pensamento, o termo ideal está, normalmente, associado ao que há de superior. Preocupada não em onde chegar, e sim em como caminhar até lá, mais até do que sinônimo de superlativo, a Casa Ideal se destacou pelos ideais que defendeu, sendo a igualdade, talvez, o principal deles.

Adquirida ainda na década de 40 por Manuel Alves Lopes, a Casa Ideal foi um dos meios encontrados pelo português de ensinar com sua bondade. Filha de ‘seu Lopes’, Marlene Lopes Soares, de 83 anos, relembra com carinho a passagem do pai pelo comércio – cujo começo se deu na ‘Casa Paz’ – e alguns de seus gestos em prol do próximo.

“Meu pai chegou a se responsabilizar pela vinda de alguns portugueses ao Brasil. Eram pessoas que queriam morar no país e que, por causa dele, já vinham empregadas pela loja”. Onde a equipe era sinônimo de família, lembrar do dia a dia do local é o mesmo que folhear álbuns de fotografia em que cada rosto traz consigo uma lembrança.

Ex-funcionária do escritório da Casa Ideal, Marlene cita alguns colegas que, junto dela, fazem parte do livro de memórias do estabelecimento especializado na venda de trajes masculinos e serviços de alfaiate. Constam nele nomes como Natalino, Cirlene, Marta e Carmen Lúcia. Esta última descrita por ela como uma funcionária e amiga excepcional. 

Num capítulo à parte da história da Casa Ideal estão, ainda, o irmão de Marlene, José Carlos Lopes, de 78 anos; e o marido dela, Antonio dos Santos Soares, de 80. Marlene e ele se conheceram na própria loja. Contratado como balconista, mais do que atendimento de primeira, o também português encontrou na casa um casamento ideal.

“Estamos juntos há mais de 50 anos com duas filhas maravilhosas, netos e bisnetos”. Tratado desde o começo ‘de igual para igual’ pelo sogro, depois que ‘seu Lopes’ se aposentou, foi Antonio quem assumiu o negócio e a clientela que, segundo ele, sempre fora formidável e reflexo da posição ocupada pela loja como uma das três melhores da cidade.

Fotos: Reprodução/Internet – Google Maps

“Nesse ramo era a Casa Ideal, a Edson e a De Carolis. Fiz amizades com gente finíssima na loja e até o Garrincha cheguei a conhecer. Trabalhar lá era muito gratificante”. Mais tarde proprietário de outros negócios, como foi o caso da sapataria Tula, Antonio conta que chegou a incorporar calçados à Casa Ideal onde, de fato, chegava-se para somar.

O cálculo era simples: para obter a avaliação positiva do público era necessário cultivar ideais tão preciosos quanto a ‘nota mil’ que se pretendia atingir. Cunhado de Antonio e irmão de Marlene, José Carlos Lopes também foi funcionário do pai na Casa Ideal. Até porque, como brinca, “Sabe como é português. Coloca os filhos pra trabalhar cedo!”.

Além de aprender a rotina de contabilidade, dos 12 aos 27 anos de idade, José Carlos, que mais tarde se tornou pró-reitor da UCP, também descobriu que por mais que o pai não quisesse que os filhos seguissem sua profissão, inevitavelmente quem contribuía com o empreendimento passava a carregar um pouquinho dele junto de si.

“Os clientes chegavam cedo para tirarem as medidas e quem as anotava para o meu pai era eu. Muitas vezes eu já sabia quais eram só de olhar”. Composto por cerca de três provas, José Carlos lembra do processo mágico que era ver, no intervalo de menos de um dia, os tecidos ingleses tomarem forma e se transformarem nos ternos dos clientes.

Movimento semelhante, inclusive, ao seguido pelo pai de Paulo Roberto Chiacchio, de 61 anos. Italiano, o alfaiate Rosário Chiacchio aprendeu e colocou em prática o ofício também em três fases: na De Carolis, Ideal e Superbol. “Quando o papai trabalhou com o Seu Lopes eu ainda nem era nascido, mas depois me lembro dele sempre passar lá para um café”.

Registro cedido pela família Chiacchio traz o alfaiate Rosário: um dos colaboradores da Casa Ideal que não apenas faz parte da história da loja, como a tem enquanto capítulo da sua própria trajetória. Foto: Arquivo pessoal Paulo Roberto Chiaccio

Mais tarde dono da própria alfaiataria no Edifício Profissional, ‘seu Rosário’ foi prova da conclusão a que chegou o filho de ‘seu Lopes’ . Não só se fez presente numa das páginas da história da Casa Ideal, como dela fez cópia para que pudesse levar junto dele. Tática seguida pelo também ex-funcionário José Freire Lopes, de 72 anos, o Zequinha.

Braço direito do antigo patrão Antonio, o pernambucano Zequinha passou 21 anos dentro da Casa Ideal atuando como vendedor e, mais tarde, gerente da loja. ‘Formidável’, foi quem levou à loja o know-how que dispunha do tempo em que atendeu a elite no comércio do Rio de Janeiro, e quem, na ausência do chefe, ficava encarregado de cuidar dos funcionários.

“Comecei a implementar recursos, a dar uma vida nova à loja. Contratamos vitrinistas do Rio, criamos o atendimento com cafezinho e aí fomos crescendo juntos”. Hoje vice-presidente do Sindicato dos Comerciários, Zequinha faz jus à descrição dada por Antonio: onde está, dá seu jeito de manter a si próprio e ao ambiente em movimento.

Onde os funcionários se mostraram distintos somente a ponto de se completarem, na Casa Ideal os colaboradores eram iguais. Iguais em comprometimento, vontade e devoção aos ideais que fizeram de cada gesto dentro da loja um lembrete de que, às vezes, a viagem se faz tão valiosa quanto o destino final que se almeja.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 27/09/2020)