Renaissance Discos: retrato de quem se deixou reinventar pela música

A exemplo do gênero musical que inspirou o nome da loja, a ‘Renaissance’ se caracterizou por sua abordagem conceitual. Como um álbum que conta uma história a partir de suas várias faixas, assim foi o negócio: retrato da figura de Fonzi que, por sua vez, se deixou contar pelos discos que vendeu, clientes que atendeu e pela reinvenção através da música.

Normalmente longas, as composições do rock progressivo buscam novos padrões sonoros ao mesmo tempo em que abordam temas variados, que vão desde a ficção à religião. E não distante disso foi a criação do petropolitano Claudio Luiz Ribeiro de Oliveira, de 56 anos. Conduzida com amor e uma dose de loucura, não há ciência que explique a loja.

“Uma semana depois da minha filha nascer eu decidi que abriria a loja. E lá fui eu, sem dinheiro nenhum ou expositor de disco, montar a Renaissance”. Motivada por sua admiração à banda de mesmo nome, a denominação dada à loja foi retrato fiel de quem, naquele ambiente, de fato passou por um processo de renascença.

Claudio cresceu numa família eclética em que se escutava desde música clássica e cubana a MPB e rock. E foi naquele mesmo ambiente que ele viu crescer seu gosto pelos discos. ‘Fonzi’, como é mais conhecido, chegou a começar a cursar Geologia, mas ainda no início da vida adulta viu que poderia não apenas respirar música, mas viver dela de vez.

Imagem traz fachada do segundo endereço da Renaissance, no Conjunto Comercial Marchese. Fotos: Arquivo pessoal Claudio Luiz Ribeiro de Oliveira – Carolina Freitas

A venda, que teve início em sua própria casa, passou a acontecer no Edifício Vitrine com a chegada da filha. “Comecei lá em 1993 com 200 LPs e, dali, tive outros dois endereços, no Marchese e Irmãos D’Angelo, e outras duas filiais no Rio e São Paulo”. Com progressões nada usuais, mais uma vez a exemplo do ‘prog rock’, o negócio surpreendeu até a Claudio.

“Em 1997 um camarada chegou na loja e se apresentou como amigo da Annie Haslam, cantora do Renaissance, e me convidou a produzir os shows dela no Brasil. Eu morri!”.

Da série de acontecimentos que nem mesmo se ‘estivesse delirando’ Fonzi acharia que poderiam acontecer, o convite não apenas foi real, como a turnê produzida por ele também.

“Eu já tinha produzido vários shows e um amigo me indicou. Foram quatro shows no Brasil. Algo inexplicável. Demorei um bom tempo pra me acostumar a tê-la ao meu lado”. Com apresentações no Rio, em São Paulo e duas em Petrópolis, na Concha Acústica, do Museu Imperial, o feito fez da loja ponto turístico para pessoas de outros estados e até países.

Com clientes ilustres como Ed Motta, Celso Blues Boy e Guilherme Lamounier, não é preciso ir longe, contudo, para encontrar quem tenha sido acolhido pela Renaissance. É o caso do colecionador de vinis e CDs, Nelson Kuster. Presente em um dos shows da britânica Annie, em Petrópolis, Nelson lembra do evento e do ‘centro cultural’ que era a loja.

“Ninguém esperava que alguém tão importante fosse se apresentar na cidade e foi o Claudio quem propiciou isso. Ficou lotado. As pessoas sentadas no chão”. Onde se convivia com pessoas com interesses semelhantes aos seus, o estabelecimento era, segundo Nelson, “lugar para se ficar num sábado por horas conversando sobre música”.

Relaxantes, as idas à loja definitivamente não se restringiam ao ato da compra e, muito menos, ao horário comercial. Carioca, o ex-cliente Augusto Lessa, de 65 anos, recorda como foi descobri-la na época em que trabalhou na cidade como representante comercial. Ele também foi ao show de Annie e fala com saudade do estabelecimento que viu crescer.

“A loja tinha tudo a ver comigo. Não era sempre que eu podia estar lá, mas como eu trabalhava uma vez por semana em Petrópolis as idas à Renaissance viraram rotina”. Nesses dias já era certo que Augusto, após às 18 horas, se dirigisse ao ‘destino turístico’, em qualquer que fosse seu endereço. Afinal, ele conheceu os três.

“Eu fechava a loja junto do Fonzi e ficávamos ouvindo música, conversando. A última lojinha era fantástica. Tinha dois ambientes e num deles eram exibidos vídeos”.

E por falar na clientela que conheceu a Renaissance em suas diferentes eras há quem, como o colecionador Yuri Garin, de 45 anos, se lembre da casa de Claudio: onde tudo começou.

“Comecei a comprar com o Claudio em 1989, na casa dele ainda. Éramos um grupo que o encontrava aos sábados e aí com a loja passamos a poder visitá-lo todo dia”. Normalmente indicado como aquele ‘capaz de conseguir qualquer que fosse o disco’, o compromisso de Claudio com a música é inegável e só perde para sua entrega à filha, Elis Bondim.

Foto: Arquivo pessoal Claudio Luiz Ribeiro de Oliveira

Hoje aos 27 anos, Elis fala sobre como foi crescer entre os discos e estar inserida, desde cedo, no meio artístico e cultural. Filha do produtor fonográfico e de shows, radialista e jornalista musical ‘Claudio Fonzi’, Elis faz questão de identificar o pai, sobretudo, como um apaixonado, um motor que estimula a produção e o consumo cultural no Brasil.

“Encaro a loja como um caminho que se abriu na vida do meu pai que, comigo pequena, conseguiu se reinventar e, junto disso, me inventar”. Onde ‘uma paixão fomentou a outra’, Elis vai além e se refere à Renaissance como uma irmã que nasceu e continua a crescer junto dela já que, apesar do fim das lojas físicas, o negócio resiste na internet.

Elis, filha de Claudio, num de seus momentos de diversão entre os discos da loja que se tornou porta de entrada para sua expansão cultural. Foto: Arquivo pessoal Claudio Luiz Ribeiro de Oliveira

“É uma irmã que acompanha toda a minha história. Sei que meu pai criou tanto a mim, quanto a ela, com muito afinco, dedicação e amor”. A princípio retrato de Claudio, a Renaissance deixou, há tempos, de ser uma história só sua e se tornou reflexo de relatos cujo impacto somente a música é capaz de explicar.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 06/09/2020)

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  1. Lucio Agra

    Essa loja vem já numa segunda época das lojas de disco de Petrópolis. Houve uma anterior, dos anos 70, em que as lojas de discos eram inúmeras (havia uma muito boa na antiga Rodoviária). Na loja Stop Light, quase na esquina com General Osório e a Avenida, comprei muitos discos. Outra inesquecível era a Music Express, na João Pessoa, acho que ainda antes daquele Shopping do lado esquerdo de quem vem da 16 de Março (o Bauhaus veio muito depois). Ou senão já existia o Shopping mesmo, não sei. A Musical era mais careira mas tinha muita coisa. E tinha seção de discos até no ENSA! Abraços

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