Situado entre o Mediterrâneo e as montanhas, há quem diga que o Líbano parece estar suspenso entre o céu e o mar. Não distante do referido pensamento é a descrição atribuída ao comerciante libanês Hamid Saikali. Dotado de um espírito empreendedor, ele instalou em Petrópolis seu caminho entre as nuvens e a terra a partir da loja de roupas Beirute.

Fotos: Arquivo pessoal Ricardo Hamid Saikali – Google Maps

O discurso de quem conheceu o senhor Hamid é coeso e quase sempre se entrelaça quando se fala em sua proatividade. Quem dá o pontapé inicial do assunto é seu filho Ricardo Hamid Saikali, de 50 anos. Ricardo recorda as origens do pai e o dom de ‘fazer diferente’ que o tornou capaz de ‘desde garoto, trabalhar por conta própria’.

“Ele sempre foi assim. Ainda no Líbano abriu uma vidraçaria e depois uma lojinha de materiais de construção que continua até hoje com o meu tio. Está no sangue da família”. Ricardo explica que parte do espírito dinâmico de seu pai foi herança do avô, que também se rendeu aos encantos do comércio e se dedicou à fabricação e venda de móveis.

O negócio, a exemplo da loja de materiais de construção, resiste e é gerenciado por tios de Ricardo. Lá ou cá, o carinho da família pelo patrimônio construído é evidente e carregado, inclusive, nos nomes dos empreendimentos. De Beirute, Ricardo destaca que houve uma época em que a loja de roupas fundada pelo pai em Petrópolis se tornou Saikali Modas.

“Sempre foi motivo de orgulho, tanto que meu pai deu o sobrenome da família para a loja. Lá no Líbano mesmo a fábrica de móveis se chama Saykali”. Oriundo da cidade de Chekka, no norte do país, ‘seu’ Hamid, com seus sonhos e ambições, mirava as nuvens ao mesmo tempo em que mantinha os pés no chão enquanto estudava como nelas chegar.

Entre as atitudes de visionário do pai, Ricardo relembra uma história que o remete ao início da Beirute: tempo em que, segundo ele, até dinamite o pai chegou a usar para expandir as dimensões da loja. Havia uma pedreira nos fundos da propriedade e a alternativa que se encontrou foi a de explodi-la para que, então, fosse possível ampliar o local.

Irmã de Ricardo, a fisioterapeuta Jane Hamid Saikali lembra de outra atitude corajosa do pai: a mudança para o Brasil cuja motivação só fez crescer o espaço ocupado por ele no coração da esposa, Haddoub. “Eles vinham de famílias de religiões diferentes, mas decidiram se casar mesmo assim, sem a aprovação dos parentes, e vir para o Brasil”.

Passado um tempo, Jane conta que a união dos dois foi aceita pelas respectivas famílias. Com ela vieram cerca de 50 anos de entrega um ao outro e aos filhos: Ricardo, Adriana, Jane e Luana. Os quatro tiveram os estudos pagos graças à loja, mas optaram por seguir seus próprios caminhos fora do comércio, com base em lições aprendidas dentro dele.

Jane, por exemplo, explica que antes de ingressar na faculdade decidiu que trabalharia por um ano com o pai. Com dúvida do que cursar, foi dentro do negócio da família que amadureceu e percebeu que também queria empreender, ainda que em outra área: a da fisioterapia.

“Fui a única que quis ter o próprio negócio. Isso eu puxei dele. Aprendi com meu pai que se você quiser alguma coisa vai ter que correr atrás porque nada cai do céu”. Focado e conhecido nas redondezas – sua loja ficava na Rua do Imperador, 441 – ‘seu’ Hamid era o típico comerciante amigo. É o que confirma o lojista José Alves Moreira, de 73 anos.

A proximidade entre os dois era inquestionável. Não só a geográfica, já que os negócios eram vizinhos, mas, sobretudo, a emocional, já que a convivência fez surgir uma amizade de mais de 20 anos entre os senhores Hamid e José. ‘Seu’ Zé relembra o episódio que determinou o começo do relacionamento entre os dois.

“Perdi um cheque de um valor significativo e ele me procurou até me encontrar. Aquilo acendeu nossa amizade. Foi uma atitude muito positiva”. Até então conhecidos, depois do referido dia se tornou difícil dizer quem mais respeitava e admirava o outro. A confiança era tamanha que foi a ‘seu’ Zé que Hamid, depois de passado o ponto da Saikali, recorreu.

“Ele tinha passado a loja e me chamou para assessorar ele no que fazer. Conversa daqui, conversa dali, sugeri a ele montar um sistema de comida árabe na própria casa dele”. E assim o fez: transformou o hobby em empreendimento e passou a produzir pratos típicos que, já antes da iniciativa, eram aprovados e saboreados pelos amigos.

Faziam parte do cardápio iguarias como o tabule, a mijadra, kibes, esfihas, kafta, babaganoush e homus. “Ele ficou feliz da vida naquele período e nos aproximamos ainda mais. Aquela amizade foi muito importante e a ausência dele uma perda grande na cidade”. Comunicativo, o libanês dava seu jeito de se aproximar e criar laços de amizade.

Na imagem, os libaneses Hamid e Haddoub. Foto: Arquivo pessoal Ricardo Hamid Saikali

Para o também ‘vizinho’ de comércio, o senhor Geraldo Carvalho, de 61 anos, não havia dia em que os botafoguenses não se falassem sobre futebol. Fanática pelo time, a dupla também se encontrava nas partidas de ‘purrinha’ da turma. “Ele gostava de jogar, mas não gostava de perder nenhum jogo”, brinca Geraldo.

Amigo e extrovertido, não admira saber que também de seu contador, o senhor Célio Vieira da Silva, de 76 anos, o comerciante libanês se tornou amigo de longa data. “Fui contador dele de 1975 até falecer. Fomos clientes e amigos. Era gente muito boa. Honesto. A família toda. Eu gostava muito dele”. 

Maior do que a própria população do Líbano, a comunidade libanesa no Brasil encanta por onde passa seja com sua culinária, personalidade e, principalmente, por seu equilíbrio e sua capacidade de fazer poesia como se, realmente, estivesse suspensa entre o céu e o mar, entre as nuvens e a terra.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 23/08/2020)