Ao mesmo tempo em que o papel pautado conforta porque traz a garantia de um trajeto já pré-definido, é na imensidão do incerto que se encontra liberdade para criar. E foi justamente nela que dois portugueses fundaram, em Petrópolis, aquela que foi considerada a maior indústria de fabricação de cadernos da América Latina: a Papelaria Pedro II.

Não bastasse terem cruzado o Atlântico para chegarem no Brasil, depois de instalados no país os senhores Dias e Cruz ainda fizeram uma travessia maior: a de trocar a segurança do papel pautado pela independência de fundar o próprio negócio e, a partir dele, poder criar e desenhar as próprias linhas.

Para Eduardo Dias, sobrinho-neto do senhor Alberto Pereira Dias, o sucesso do referido negócio em muito se deu à amizade sólida e respeitosa de 50 anos entre os dois visionários. Representante comercial de máquinas registradoras na cidade, seu tio também vendia canetas, o que o fez se sentir cada vez mais imerso no ramo das papelarias.

“O senhor Cruz tinha um pequeno negócio e junto dessa amizade deles surge uma sociedade. Eles construíram a papelaria e aquilo foi crescendo na cidade”. Dotado de um olhar sem igual para a mecânica, ‘seu Dias’ passou a construir as próprias máquinas de fabricação de cadernos e a montá-los no fundo da loja.

As máquinas tinham potencial e foi isso que o português viu nelas: a oportunidade de impulsioná-lo dentro do mercado.

“Ele gostava muito de visualizar, construir, inovar, e foi o que fez. Ele chegou a construir e vender máquinas para várias fábricas, inclusive a Tilibra”.

Modesto, o espaço de produção foi logo substituído por um maior, no São Sebastião.

Na primeira imagem, os senhores Cruz e Dias, respectivamente. Na segunda, a fábrica, no São Sebastião, em que operou a produção da Pedro II. (Fotos: Arquivo pessoal Mário da Silva Palmeira – Reprodução/Google Maps)

Operavam, então, a papelaria na Avenida XV de Novembro e a gráfica no Indaiá. Chegando a empregar mais de 400 funcionários, o empreendimento tinha prestígio no Brasil e até fora dele já que, de acordo com Eduardo, houve um tempo em que a firma foi eleita, pela antiga revista O Cruzeiro, como a maior indústria de fabricação de cadernos da América Latina.

“Por volta de 1975 a papelaria comprou da Alemanha uma das máquinas de caderno mais famosas que existiam. Chegaram a vir técnicos de lá montar o equipamento”. Alinhando bom preço e qualidade, a Pedro II produzia desde cadernos e envelopes para carta a cartões de visita, blocos e até baralho.

“Petrópolis ainda tinha o jogo, então eles também apostaram nos baralhos. Eles tinham muita visão, e depois veio o filho do seu Cruz, o Fernando, que era dotado do mesmo toque espetacular de administração”, aponta Eduardo, que por um tempo também colaborou com a firma cuja verdadeira marca era a generosidade.

“Foram imigrantes que cresceram, mas que souberam dividir e retribuir. No final da papelaria meu tio juntou a família e disse que a parte dele da empresa ele deixaria para os 30 funcionários mais antigos”.

Um deles foi o senhor Mário da Silva Palmeira que, de 76 anos vividos, 44 ele conta que foram dedicados à empresa.

“Entrei garotão e saí velhão. Comecei lá varrendo sala e me aposentei como supervisor geral de produção da firma”. Tendo deslanchado assim que passou a monitorar máquina de pautar cadernos, ‘seu Mário’ foi um dos que se viu, dentro da Pedro II, responsável por criar e desenhar as próprias linhas nos âmbitos profissional e pessoal.

“A gente transformava o papel em caderno. Pautava, cortava, depois dobrava. Era espetacular. Gratificante. Cheguei a comandar 300 pessoas na época boa”. Testemunha da produção diária de 10 mil cadernos, ele lembra das 14 máquinas encarregadas de fazê-los e da ‘turma’ que dava conta do recado.

Foto: Mário, que de faxineiro se tornou supervisor geral de produção da empresa, é o primeiro à direita na foto. Foram 44 anos como funcionário da firma. (Foto: Arquivo pessoal Mário da Silva Palmeira)

“A melhor coisa que aconteceu comigo foi ter trabalhado lá. Me dava bem com todo mundo e agradeço à turma pelo meu sucesso na Pedro II”. Além de ter se tornado um dos mais respeitados chefes da fábrica, foi graças à empresa que ‘seu Mário’ cativou também a esposa e ex-funcionária Vilma Bello, de 62 anos. Os dois estão juntos há três décadas.

“Conheci o Mário quando já trabalhava na Pedro II há um ano e pouco. A gente foi se gostando e começou a sair depois do expediente, já que eu trabalhava em um setor diferente do dele, o de embalagem e picote”, recorda Vilma, que com Mário teve o filho Otávio Palmeira, hoje com 29 anos.

Otávio é formado em marketing e afirma que o primeiro professor de gestão de pessoas tido por ele foi seu pai, que tão logo Otávio aprendeu a andar o levou para caminhar pelos galpões que acabaram por se tornar uma extensão da casa da família. “Meu pai me levava pra indústria e me soltava no meio da produção. O cheiro de lá me marcou muito”.

Ironia ou não do destino, Otávio explica que, já na fase adulta, chegou a trabalhar por um curto período na Sermograf: empreendimento que funciona no espaço em que costumava operar a fábrica da Pedro II. “Eu lembrava daquele prédio e dos galpões como se fosse minha casa. Até o barulho do maquinário me fazia visitar minha infância”.

Para alguns um cheiro, para a aposentada Maria Salette Guerra Silveira, de 78 anos, um fragmento de papel. É em seu convite de casamento que estão reunidas suas lembranças da Papelaria Pedro II. Presente de sua amiga Edna que trabalhou como caixa da loja, os convites feitos na gráfica trazem também as primeiras impressões do amor com Gilson.

Foto: Arquivo pessoal Maria Salette Guerra Silveira

“Meu convite foi feito em 1965. Naquela época toda moça queria ter um noivo, um casamento bonito. Já fiz bodas de ouro e esse ano vamos fazer 55 anos de casados”. Generoso, o tempo na Papelaria Pedro II provou que, mais do que um espaço no mercado, os portugueses Dias e Cruz conquistaram um lugar junto ao coração de quem lá comprou ou trabalhou.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 26/07/2020)