Os turnos eram três e o quadro de funcionários somava mais de 500 deles. Com o ritmo ditado pelo maquinário, coube aos colaboradores, contudo, garantir que o coração de ferro da fábrica pulsasse na mesma sintonia em cada um deles. Na torção do algodão ou na torcida por seu sucesso, foi na base do fio que a Fagam cresceu e escreveu sua história.

Condutor de energia, talvez o ferro dos equipamentos tenha contribuído para preservar o carinho depositado na fábrica por seu diretor, o alemão Carl Wilhelm Amberger, ainda na década de 50. Nascido na cidade de Bayreuth, na Alemanha, foi quem, ao longo de 30 anos, dirigiu dia e noite o referido projeto de vida. 

Na imagem, o doutor Carl Wilhelm Amberger: alemão que escolheu o Brasil como morada e a Fagam como o projeto de uma vida. Foto: Ruth Hannah Amberger

“Por trás de uma grande empresa existe, normalmente, alguém forte. E acho que a história do meu pai foi fascinante”. Enquanto revira fotografias da fábrica da qual também foi presidente, Ruth Hannah Amberger, filha de Carl, recorda uma das principais lições aprendidas em seus anos de Fagam: a do poder da sinergia. 

Como Ruth – hoje aos 73 anos – bem aponta, mais do que o envolvimento com finanças, um dirigente precisa estar preparado para lidar e inspirar gente: principal engrenagem de qualquer processo de produção. E era isso que seu pai, nos anos 70 naturalizado como Carlos Guilherme do Monte, o doutor Amberger, fazia.

“Ele entrou na Fagam em 1951 como sócio e em 53 assumiu a presidência da fábrica, que começa com 50, 60 funcionários, e depois chega a ter 500”. Abreviação para ‘Fábrica de Ataduras, Gazes e Algodões Medicinais’, Ruth explica que ainda que as fraldas tenham feito a infância dos petropolitanos, apenas ¼ da produção se dedicava a elas.

Foto: Arquivo pessoal Ruth Hannah Amberger – Reprodução/Facebook/Helcio Mano/Petrópolis e sua história

“A fábrica surge no pós-guerra pra fornecer materiais cirúrgicos para hospitais, drogarias, farmácias. Eram toneladas de algodão transformadas”. Na base do fio, os produtos eram reflexo de um minucioso processo que exigia a torção da matéria-prima e, principalmente, a torcida da equipe, que fazia a Fagam ser vista de Norte a Sul do país.

Além de Ruth, na presidência de 1982 até os anos 2000, colaboraram com a firma seus irmãos Jorge (Jürgem) e Frank. Aquele na direção e este, sobretudo, na área de vendas externas. Ruth recorda os desafios enfrentados, o aprendizado e, principalmente, a gratificação de modernizar o projeto do pai, sem perder a tradição.

“Em 1977 implantamos a fiação. Eram 100 toneladas de fio produzidas por mês. Participávamos de congressos em São Paulo, no Rio, Ceará”.

Atuante na Fagam por quase tanto tempo quanto Ruth, o ex-funcionário José Maria da Costa, de 66 anos, relembra as mais de duas décadas em que viu a firma expandir seu complexo fabril e atuação. 

“Me lembro de quando construíram um prédio com sete andares que serviria como heliporto. A Fagam era a terceira melhor do ramo no país, só perdia pra Johnson e Cremer”. Presente, se não lhe falha a memória, em 21 estados, de acordo com ‘Zé Maria’ até no Nordeste a Fagam tinha fábricas com vilas operárias instaladas.

“Era coisa de louco. E a gente cuidava do negócio como se fosse nosso. Minha família até dizia que quando a fábrica fechasse até morrer eu podia”. Contratado como contra-mestre, ‘Zé Maria’ chegou a exercer também os postos de encarregado de manutenção, chefe de turma e supervisor. Aposentado pela Fagam, diz sentir falta dela.

“Desde menino trabalhei com algodão, então parece que vira uma cachaça. Se ela não tivesse fechado eu estaria lá até hoje”. Sediada na região do Duarte da Silveira, a fábrica era motivo de orgulho para os moradores da localidade, que mesmo quando não eram empregados de lá, testemunhavam o movimento no varejo da firma.

Nascida e criada no Duarte, Flávia Nunes, de 42 anos, descreve as filas diárias de compradores que se formavam em frente à Fagam. “Petrópolis inteiro usou fralda de lá. As filas eram uma constante e até hoje os moradores são saudosos”. Mais até do que tecidos, pode-se dizer que a firma foi capaz de tecer uma rede de afeto e carinho.

Sentimentos, aliás, presentes no discurso de Flávia, que afirma sem titubear que o presente mais bonito recebido por sua filha, Maria Júlia, foram fraldas da Fagam dadas por uma vizinha, que as guardava da época em que o filho era bebê. “Na época o filho dela já tinha 20 anos, e ainda assim ela as tinha mantido. Nunca esqueço. Aquilo teve um significado”.

E se por um lado Flávia era jovem demais à época para da fábrica ter sido funcionária, tanto sua irmã, quanto seu irmão, Joel Nunes, de 49 anos, chegaram a colaborar com a Fagam. A passagem de Joel pela firma foi breve, mas duradoura o suficiente para ensiná-lo preciosas lições sobre a complexidade e, por que não, fragilidade do processo.

Era Joel quem, das duas às dez, mantinha o departamento da fiação limpo. Cabia a ele tanto evitar que os fragmentos de algodão se aproximassem das máquinas, como monitorar o sutil processo de construção do fio na bobina, que, segundo ele, de tão fino até sob a ação do vento era capaz de se romper.

“Tinha vezes que a seção parecia estar coberta de neve! E eu achava a bobina interessante porque ela indicava com cor quando um fio arrebentava ou era emendado”. Peça de uma engrenagem maior, Joel afirma que por mais novo que fosse, saiu da fábrica com uma melhor compreensão do que verdadeiramente significa trabalhar em conjunto.

Fotografia tirada no interior da fábrica traz um dos momentos finais da produção em que o fio já havia dado lugar ao tecido. Firma chegou a empregar 500 pessoas somente em Petrópolis. Foto: Arquivo pessoal Ruth Hannah Amberger

Cada pessoa tinha que fazer bem feito porque um dependia do outro. Se um errasse o tecido podia ser prejudicado”. Feita de sinergia, coube à Fagam, a exemplo do algodão que se fez tecido e do fio que escreveu história, mostrar que o que é tido como frágil pode ser a base de que se precisa para evoluir.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 19/07/2020)