Especializada na venda de presentes, nem mesmo o encerramento das atividades da loja foi capaz de fazer com que ela abandonasse sua essência: a de fazer e ser lembrada. Após 43 anos ininterruptos de serviços prestados à cidade, a Exodus se mostrou, de fato, rito de passagem, movimento e, sobretudo, satisfação.

Capaz de encontrar o que o cliente queria, ao mesmo tempo em que o fazia gostar do que se oferecia. Foi assim, pelo atendimento ímpar, que a grande maioria dos ex-fregueses se tornou fiel ao estabelecimento. Independente da mercadoria que os atraiu em primeiro lugar, foi a figura do ‘seu’ Zezinho que os fez querer ficar.

No caso do representante comercial Osvaldo França Monteiro, de 57 anos, foram os aromas que o conduziram até a loja. Apaixonado por perfumes, ele lá encontrou importados que iam, praticamente, de A a Z, com destaque para o clássico Azzaro; bem como a atenção e calma de ‘seu’ Zezinho, que com naturalidade ganhava o cliente.

“O que muitas empresas buscavam promover com treinamentos ele fazia com espontaneidade. Ele tornava a compra mais fácil e agradável”. E foi assim que antes mesmo que seus frascos de perfume se esvaziassem, Osvaldo se via à procura de motivos que o levassem de volta à loja e que, normalmente, envolviam o ato de presentear.

“Era como se sempre houvesse um presente esperando por você. Sabe quando você olha para a prateleira e praticamente acende uma luz? Era uma coisa incrível”. Local ideal para presentear tanto a pessoas especiais, quanto a si próprio, como fazia o jornalista e professor Rodrigo Portugal Pereira, de 35 anos.

Rodrigo era admirador de longa data da Exodus. Colecionador de ao menos 500 miniaturas de personagens, ele conta que, fosse enquanto criança ou já nos tempos de adulto, a vitrine da loja era parada obrigatória sua. As mercadorias eram assunto sério para ele que, inclusive, esperou cinco anos para que uma peça em especial entrasse em promoção.

O item em questão é uma releitura dos personagens de ‘O mágico de Oz’ que, aliás, Rodrigo já havia se conformado de que nunca seria sua. Bom, isso até a loja entrar em liquidação em seus últimos dias. “Por mais que o motivo da compra tenha sido triste, aprendi que, às vezes, vale a pena esperar para conseguir o que se quer”.

Uma tentação. Assim era passar pela fachada da Exodus sem poder parar para contemplá-la. Motivo, inclusive, pelo qual a mãe da petropolitana Aline Castella, de 40 anos, era capaz de mudar o itinerário quando estava a caminho da escola dos filhos. De acordo com Aline, bastava o irmão avistar a loja para ficar ‘alucinado’.

“Ele devia ter uns seis anos, então se minha mãe esquecesse de desviar da Exodus: pronto. Ela tinha que parar para ele entrar e ver os bonecos e carrinhos”.

Normalmente com os minutos contados antes da aula, a preocupação da matriarca era com o relógio, que ao menos para o senhor Zezinho foi sempre bondoso.

Aos 89 anos, ‘seu’ José Coelho de Queiroz relembra as mais de quatro décadas dedicadas à loja. Das nove da manhã às sete da noite. Enquanto estivesse aberta, era certo que o cliente fosse encontrá-lo por lá. A presença era algo pelo qual primava e que, segundo ele, foi fundamental na consolidação do negócio.

Google Maps – Alan Pacheco

Formado em contabilidade, Zezinho admite que foi sua atuação no comércio que, de fato, pesou na balança. Até porque antes mesmo de fundar a Exodus ele passou outros 20 anos a frente de uma charutaria no Centro, o que, já naquela época, comprava seu prazer em atender, ouvir e ajudar os fregueses.

“Minha clientela ia na Exodus nem sempre pra comprar, mas conversar, ouvir uma palavra de carinho. Era uma loja versátil, ainda que simples, em que eu primava pelo melhor”. De guarda-chuvas a carteiras, lenços, pantufas e canetas que nem as papelarias tinham, havia algo na loja de especial e diferente.

No ramo comercial conhecido como ‘seu Queiroz’, entre os colegas de classe chamado de ‘Coelho’ e pelos amigos de ‘Zezinho’, para Daisy Seabra de Queiroz, de 63 anos, contudo, não há melhor denominação para ele do que ‘pai’. Filha mais velha do empreendedor, foi quem sugeriu, ainda adolescente, que o negócio carregasse o nome de Exodus.

Conjunto bom de fatores, o título, além de sonoro, trazia a ideia de movimento, mudança, transição. E assim foi o negócio: sinônimo de transformação do que se esperava do comércio. “Foram relações afetivas que ultrapassaram aquela relação objetiva e mecânica. Acho a dedicação e a realização do meu pai de uma beleza e um valor muito grandes”.

Na imagem, ‘seu’ Zezinho aparece dentro da loja acompanhado da família: filhas, genro e netos – algumas das testemunhas de sua dedicação ao empreendimento de uma vida. Foto: Arquivo pessoal José Coelho de Queiroz

De tanto vender lembrancinhas, nem mesmo o encerramentos das atividades da Exodus foi capaz de levar embora a lembrança da loja. Lembrança amistosa presente na memória de seu Zezinho, da esposa, Maria Aparecida, das filhas, Daisy e Denise, e de todos que por ela passaram e, inevitavelmente, se relacionaram.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 28/06/2020)