Foi nos anos 90 que a gordura animal deixou as prateleiras e as Casas da Banha, por sua vez, saíram do mercado. De repente, a crença era a de que o produto poderia ser prejudicial à saúde cardiovascular. Hoje reincorporado à rotina, ao menos entre a família “CB” nunca houve dúvida: se o elemento atuou sob o coração foi para fortalecê-lo.

Ex-funcionários levam a crer que a nomeação da rede de supermercados não pode ter sido obra do acaso. Até porque, se não fosse pelas propriedades do conservante natural presente no título da marca, que outra explicação teriam os elos, preservados e intactos, ainda que cultivados 40 anos atrás?

Ela era caixa, e ele, funcionário da padaria. Assim teve início a história de amor entre Lucimar do Prado Souza, de 60 anos, e Antônio, com quem está casada há 35 deles. Os tempos eram outros, mas não a falta dele para quem operava em supermercado e já se via sem hora para sair e muito menos para namorar.

“Então era com o pessoal de lá mesmo que a gente namorava”, brinca Lucimar, que embora não tenha tido sua primeira experiência profissional nas Casas da Banha, vivenciou lá, de longe, a mais marcante.

Foram 10 anos na filial da Praça da Inconfidência. 10 anos que lhe possibilitaram encontrar sua cara-metade e ver colegas conquistarem o mesmo.

“Minha cunhada também conheceu o marido lá. Ela era recepcionista e ele trabalhava como empacotador. Eles se casaram uns quatro anos depois de mim”. E como se não bastasse ter recebido da “CB” seu maior presente – o noivo, também foi cortesia da casa o bolo confeitado ‘com muito carinho’ para o casamento.

A ação do tempo sob os ex-funcionários – em sua maioria já aposentados – é inevitável, mas não no que diz respeito às suas fontes de energia, que aparentam ser inesgotáveis. Se lá atrás a equipe dava um jeito de recarregar as baterias e se divertir do início ao fim do expediente, hoje mais de 80 deles mantém contato no grupo “Família CB”.

Registro traz a loja 05 das Casas da Banha, na Rua do Imperador. Fotos: Arquivo Histórico Biblioteca Municipal – Google Maps

Provenientes das quatro lojas das Casas da Banha que Petrópolis costumava sediar, o grupo reúne histórias das filiais “60, na Praça da Inconfidência; 05, na Rua do Imperador; 61, no Alto da Serra; e 70, no Quitandinha”. Quem recorda as numerações de cada uma delas é a ex-funcionária Teresa Babo da Rocha, de 57 anos.

“Cheguei a trabalhar no escritório da 60. Eu tirava nota pra lá e pra cá, de loja pra loja, então até hoje tenho o vício de chamar pela numeração”. Contratada pelo então Ensa, Teresa lembra o susto que foi ver a rede “CB” assumir outras franquias já consolidadas na cidade, como o próprio Entreposto Nacional.

Fotografia da kombi de entregas da CB é uma das dezenas de imagens compartilhadas por ex-funcionários no grupo de WhatsApp “Família CB”. É lá que eles mantém o passado vivo através de pílulas de nostalgia.

Frente ao CB, Teresa diz que “não tinha pra ninguém”. Tanto que, tão logo ele chegou, foi abraçado de corpo e alma pelos consumidores petropolitanos e, sobretudo, pelos funcionários, que se viram diante de benefícios que antes nem sonhavam em ter, como as horas extras remuneradas e o direito a refeições custeadas pela firma.

“Eles eram muito corretos com os funcionários, então vestimos a camisa. Lembro que os donos, portugueses riquíssimos, às vezes apareciam na loja, conversavam com a gente”. Aparições quase tão emblemáticas quanto a dos porquinhos dos comerciais das Casas da Banha que visitavam as filiais no Natal e Dia das Crianças para tirar foto com os pequenos.

Bom, não só com eles, mas também – e às vezes até mais – com os grandes. Atire a primeira pedra o adulto que, na época, não se rendeu ao “chá-chá-chá” em frente ao televisor. O jingle passou a fazer parte da cultura popular e, ao menos para o pai de Vânia Nicolau de Oliveira, de 53 anos, Casa da Banha se tornou sinônimo de compra.

Passados praticamente 40 anos desde que foi declarada a falência da rede, Vânia conta que o pai, Erasmo, de 84 anos, ainda se refere ao estabelecimento como se jamais tivesse fechado. “Até hoje ele diz que vai Casa da Banha. É interessante porque para outras coisas ele é tão atual, mas essa se tornou uma memória afetiva que ele não quis deixar”.

Historiadora, Vânia analisa com fascínio o vínculo estabelecido pelo pai com o negócio cujo atendimento, segundo ele, “era um primor”. Mineiro, “seu” Erasmo passou por momentos de dificuldade quando se mudou para Petrópolis, e talvez tenha sido por isso, pela satisfação que era garantir o alimento da família na “CB’, que ele tenha nutrido tanto carinho pela loja.

“Era aquela felicidade de saber que conseguiria sustentar os 4 filhos. Me lembro dele chegando em casa com aquela sacola de papel do mercado”. Numa época em que ir às compras era rezar para não chover, no quesito coração as Casas da Banha não ofereciam prejuízo. Muito pelo contrário. Era a certeza de saber que dali viria a alegria.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 14/06/2020)