Principal instrumento no preparo dos medalhões da casa, era o Braseiro responsável por derreter o queijo, quebrar o gelo e temperar a noitada da freguesia, que até o dia viu raiar por lá. Movimentado, o ambiente se firmou como aquele em que a noite não terminou e cuja chama nunca cessou.

As faíscas do dia 28 de dezembro de 1978 ainda habitam dentro de Lília Maria Flores Ambrósio, de 69 anos. Foi nesse dia que, junto do então marido, Kaká Ambrósio, e do sócio Leslei Feldman, ela fez a brasa do estabelecimento começar a queimar, sem jamais se deixar apagar.

Registro da inauguração do Braseiro faz transparecer a essência do local: fundado em família e conduzido entre amigos. (Foto: Arquivo pessoal Lília Maria Flores Ambrósio)

Situado na Rua 16 de março, o espaço funcionou como uma extensão da casa dos envolvidos, tamanho o carinho depositado nele. A ideia era abrir um espaço que estivesse aberto a hora que fosse, e assim foi feito. De manhã, restaurante com direito à chá da tarde no salão de cima, e, à noite, bar.

“Tinha a rapaziada que vinha mesmo para tomar o chopp, e as senhoras que subiam, onde servíamos chocolate quente, chás, torradas”. Charmoso, ainda que sujeito a um espaço reduzido, o negócio tinha, de fato, um braseiro que ocupava o térreo da casa e que operava como ‘mini-churrascaria’.

Do utensílio saíam medalhões, corações, queijo; e, do Braseiro – bar, uma freguesia satisfeita, certa de que não demoraria a voltar ao salão. Todo decorado em madeira, ele trazia um aquário – “quem estava doido, adorava ver os peixinhos”, brinca Lília, paredes revestidas por casco e mesas que, na verdade, eram troncos de árvores.

Fotos: Arquivo pessoal Lília Maria Flores Ambrósio – Reprodução/Internet

Também rústica era a escada, pé sim, pé não, que dava acesso ao segundo andar da propriedade e ‘canseira’ em que já havia bebido uma ou duas. Lília, que hoje atua como recepcionista da Casa de Santos Dumont, acha graça de, 40 anos depois, trabalhar na morada da escada: “Quem diria?”.

Lugar de um ‘entra e sai’ sem tamanho, o Braseiro se tornou não só o primeiro bar a operar dia e noite na cidade, mas também um dos primeiros estabelecimentos da categoria em que mulheres podiam frequentar sozinhas – já que Lilia estava sempre por lá – e trabalhar, como é o caso de Isabel Maria Ursula, de 49 anos.

Isabel se juntou ao time como garçonete já na época em que ele era liderado pelo senhor Germano e os filhos, Fábio e Ricardo. Colaboradora do bar por dois anos, Isabel prova, através de seu discurso, que a mesma chama iniciada por Lília se manteve acesa por ‘seu’ Germano: a do apreço pelo que o negócio representou.

‘Palco de companheirismo e amizade’, o estabelecimento foi sede do chá de bebê de Isabel, que lá comemorou a vinda de Luis Guilherme. Ela conta, inclusive, que a escolha do nome do filho foi motivada por um dos clientes da casa. “Esse senhor, Guilherme, era nosso freguês e fez questão de me dar o carrinho do meu filho”.

Sem brigas, os únicos duelos do bar eram aqueles que ora disputavam a atenção do bem humorado e atencioso senhor Germano, ora tentavam eleger o aperitivo mais saboroso servido pelo Braseiro – que normalmente ficava entre o provolone à milanesa e as porções de aipim.

Embora confesse que na maior parte das vezes suas idas ao local tenham sido despretensiosas, o petropolitano João Soares de Sampaio, de 45 anos, admite que o quente do Braseiro era a atmosfera do local, que “rendia os melhores finais de noite, na maioria das vezes, melhores até que a noite em si!”.

Imbatível, o lugar, de fato, era destino recorrente de quem, numa de não querer dar a noite como concluída, acabava garantindo um lugar junto ao Braseiro para apreciar a pizza da casa, ‘tomar umas últimas e trocar uma ideia sobre como tinha sido a noite’ antes de tomar o caminho de voltar para casa.

Trajeto esse que, para moradores de outros distritos, envolvia uma verdadeira ‘mão de obra’. Reginaldo Xavier Wenceslau, de 63 anos, por exemplo, cresceu na Posse e se orgulha em dizer que não só da inauguração do Braseiro chegou a participar, como o bar frequentou praticamente até fechar.

Ele compartilha detalhes das vezes em que perdeu o último ônibus de volta para o quinto distrito e teve que se abrigar no Braseiro – fiel escudeiro – até às cinco da manhã; e da experiência tida no segundo andar do bar: ala preferida dos casais apaixonados.

“Uma vez fui lá, mas tinha um garçom enxerido que fingia ir no depósito só para dar o flagra. Esse vinha naquela sapatilha do Museu, sem fazer barulho”, brinca Reginaldo.

Digno de se fazer derreter o queijo e o gelo, foi o Braseiro detentor de um devoto público e, sobretudo, de uma chama que não se deixou apagar.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 07/06/2020)