A decisão já estava feita e a atração mais que definida. Se necessário, até a rota o viajante mudava para não deixar o restaurante de fora do itinerário. Infalível, a interativa visita ao Falconi remontava à regra de ouro do comércio tradicional: a de que a cordialidade pauta a qualidade.

Arquivo pessoal Renato Falconi – Bruno Avellar

O passeio ao Falconi era restrito ao interior do estabelecimento mas, ainda assim, capaz de garantir novas perspectivas da essência da cidade que o cercava. Referência geográfica, representou, ainda, a convivência com uma Petrópolis plural, consequência de sua formação cultural.

Sem hora para sair, eram as vontades do público que auxiliavam a elaboração do roteiro do Falconi. Em sua maioria vindos de longe, os grupos buscavam – às vezes até mais do que a refeição propriamente dita – alimentar-se da música, das companhias e da filosofia que compunham a atmosfera do local.

Conhecido de longa data pelos petropolitanos, o empreendimento também caiu no gosto dos turistas que, estimulados por guias – como foi o caso da aposentada Maria Lúcia Coelho Vieira, de 68 anos – recorriam à variedade e ao sossego do restaurante no café da tarde e no jantar.

“Eu costumava levar para jantar grupos iam pernoitar na cidade. Eles eram bem exigentes, mas o Falconi era sempre elogiado, inclusive por mim. Meus colegas até continuam como guias, só que agora falta o Falconi”. Incorporado à rotina de guia desempenhada por Maria Lúcia por 15 anos, o restaurante acabou (re)querido pelo público que visitava a cidade.

Tradição de mais de uma geração, o ambiente foi também querido por clientes locais que se acostumaram a por lá parar e contemplar a realização de uma vida: fosse ela o negócio fundado pelos Falconi ou a relação construída com o acompanhante, cujo jantar de dia dos namorados, fatalmente, seria embalado pelas massas da casa.

A luz de velas, conta a fotógrafa Gisele Rocha, de 44 anos, que ano após ano, por muitos deles, sua ida ao local no dia 12 de junho junto do também fotógrafo e marido José Paulo era de praxe. “Era praticamente o único restaurante romântico que montava uma decoração assim. Me lembro dos casais fazerem fila para aguardar os outros saírem”.

Um chefe de família e de cozinha

Destino certo em roteiros de viagem, o restaurante foi destino final da também viagem do italiano Romolo Falconi ao Brasil. Pai de família, viu aqui a possibilidade de estar junto a ela sem precisar servir à Itália na guerra então disputada contra a Abissínia. Desembarcou no país em 1896 e, em 1908, abriu o Restaurante Itália – mais tarde Falconi.

Localizado na Rua do Imperador, 737, o empreendimento era referência cultural e gastronômica. Idealizado por Romolo, punha em prática as habilidades adquiridas por ele enquanto chefe de cozinha dos consulados da Suécia e do Canadá, bem como expunha a bagagem de massas e molhos trazida de seu país de origem.

Transmitido às gerações seguintes, o envolvimento com o Falconi acabou herdado pelos filhos Aldo, na fábrica de massas, Umberto, na cozinha, Orlando, na administração do restaurante; e até pelos netos, como é o caso do aposentado de 85 anos Renato Falconi, que nasceu, cresceu e conheceu como ninguém o sobrado do restaurante.

O senhor Renato Falconi, quando pequeno, já no restaurante. Foto: arquivo pessoal Renato Falconi

Criado a base das massas, o senhor Renato aprendeu que o ponto ideal de cozimento e conhecimento é o intermediário entre o rígido e o enfraquecido. Engajado com a história dos Falconi, preserva a memória da família, sem deixar que seu envolvimento prejudique a precisão das informações e datas, que cita sem titubear.

“Tínhamos dez garçons, quatro funcionários na copa, seis na cozinha e dois na sala de segunda, que servia o mesmo cardápio da sala da frente, só que por um preço mais baixo porque era frequentada por choferes e motoristas de caminhão”.

De senhoras de chapéu e vestido a caminhoneiros, o Falconi produzia ao menos dois mil quilos de massa por dia.

Estimado pelo senhor Renato, que aproveita para mencionar que as mercadorias também eram consumidas no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora, o número constata a qualidade que, atrelada à cordialidade oferecida por garçons como o pai da mineira Symone Henriques Muniz, de 31 anos, faziam do estabelecimento imprescindível ao itinerário.

Fora o sustento das filhas, com 20 anos de serviços prestados à casa, o senhor Antônio Muniz garantiu o fascínio das filhas pelo local. Para Symone não havia época do ano mais feliz que as férias escolares: período em que vinha a Petrópolis junto da irmã Soraia, visitava o pai e degustava as sobremesas servidas por lá.

“Meu pai era garçom, mas era ele quem fazia o profiteroles pra gente. Me lembro também de um copeiro que gostava muito de agradar a gente e nos preparava mousse de chocolate. São lindas as lembranças dessa casa!”. Intenso, o convívio com o restaurante fez dele atração e destino mais que (re)querido pelo público.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 15/12/2020)