Premeditado na derrubada dos pinos, no jogo da conquista, por sua vez, o número de arremessos dependia da investida. Sem passar da linha – para não perder pontos frente aos adversários, e nem se firmar no uso da canaleta, o grande lance no La Bohemia era partir para o ataque. 

Arquivo pessoal Carlinhos DJ – Google Maps

Fosse a meta derrubar o diamante de pinos ou as barreiras que, na pista do amor, separam o eu dos outros, o primeiro passo para se dar bem no jogo era definir as estratégias que melhor funcionavam para cada um. Ainda que, vez ou outra, surgissem principiantes que, logo no primeiro arremesso, garantiam o strike e levavam a rodada.

Semana sim, semana também, a petropolitana Fátima Barbosa Paixão, de 44 anos, confessa ter ido ao La Bohemia. Acontece que, para ela, o jogo só teve início, de fato, em 02/08/98, quando conheceu Ednésio, com quem está há 21 anos. Igualmente apaixonados, naquele dia descobriram que, às vezes, um empate vale mais que uma vitória. 

“Nos conhecemos de repente, sem nem imaginar. Até porque eram quase sempre as mesmas pessoas por lá, mas aquela era a primeira vez dele na danceteria”. Apresentados por Alexandre, amigo em comum que funcionou como canaleta da partida, daquele dia em diante a dupla se mostrou invicta, independente das circunstâncias.

Como se não bastasse o casal ter se conhecido no La Bohemia, contam eles que o local escolhido para comemorar o noivado foi a Churrascaria Maloca. No dia do casamento, a preocupação era que o cartório também fosse pegar fogo: “até agora não pegou não”, brinca Fátima, cuja única chama acesa e mantida desde então é a da união.

Um dos primeiros, senão o primeiro estabelecimento a implementar o boliche como forma de diversão, o La Bohemia foi, na verdade, restaurante antes de se tornar casa de shows. Conta o ex-gerente Gerson de Souza Rocha, de 60 anos, que até comida a quilo o ambiente, que dava direito a mesas de totó e sinuca, chegou a servir.

Arquivo pessoal Carlinhos DJ

Econômico nas palavras, mas generoso nas atitudes, o senhor Gerson é evidência de que no jogo de pouco adianta falar, sem ele saber comandar. Funcionário da casa por onze anos, diz com facilidade que Petrópolis nunca mais teve casa como aquela que, de ruim, para ele, não teve nada.

Central, o que facilitava a locomoção dos frequentadores da danceteria, a rotina do La Bohemia era intensa: em parte para o público, que chegava a passar nove horas remexendo o esqueleto; mas, principalmente, para o corpo de funcionários, cuja atuação, dependendo do dia, beirava as 15 horas.

“Teve vezes de eu pegar lá às quatro e meia da tarde e sair às cinco e meia da manhã. Construí boas amizades que vão pro resto da vida. As pessoas hoje me encontram, cumprimentam, abraçam. O próprio senhor Américo sempre foi ótimo: como patrão e como amigo”. 

Onde o desregrado veio de bom grado

Pautadas pela matemática, as jogadas e cantadas eram regradas para evitar que os jogadores fossem desclassificados por pisarem ou irem além da linha. Limitados, no boliche, a dois arremessos por vez, os movimentos fazem lembrar, ainda, do dois pra lá, dois pra cá das aulas de dança de salão promovidas no La Bohemia.

Fenômeno, à época, as turmas comandadas pela bailarina e professora Rosa Demarchi, de 55 anos, em parceria com Pedrinho Alves, chegavam facilmente aos 50 alunos. Embalada pelo ritmo da saudade, Rosa dança pelas lembranças daqueles que descreve como sendo alguns de seus primeiros grupos dentro da modalidade.

“Dávamos as aulas duas vezes por semana sendo que, às sextas, tínhamos os bailes com várias bandas da cidade que enchiam a casa. Nos finais de semana era muito importante estarmos todos juntos”. Influenciado pelo Carlinhos DJ, dentro do salão, o único compromisso do público era com a diversão.

DJ da casa durante 12 anos, de 1988 ao ano 2000 – quando as portas do La Bohemia se fecharam após um incêndio, era Carlinhos quem fazia das noites e madrugadas da casa badaladas. Multifacetada, como faz questão de descrever, a pista era variada e “englobava gente de todos os perfis”, o que, segundo ele, era o grande barato.

Do samba, axé e rock, aos hinos eletrônicos que marcaram época no La Bohemia – The Rhythm of the Night, de Corona, e In the Ghetto, de David Morales; a programação agradava todas as tribos: desde os mais jovens à terceira idade. Até hoje reconhecido nas ruas, recorda a intensidade com que o fenômeno tomou conta de toda uma geração.

Este slideshow necessita de JavaScript.

“Volta e meia as pessoas escutam minha voz e se lembram de mim de lá. Eu falava muito no microfone”. Mais do que isso, era Carlinhos a marcante voz por trás da convocação para abrir a pista. Sem música específica, um “boa noite, galera! Essa é a danceteria La Bohemia. Vamos dançar e detonar” era o suficiente para levá-los à loucura.

Desregrado no sentido de não se ater a um padrão pré-definido, o La Bohemia foi, para a fisioterapeuta Vania Regina Parente de Almeida, de 58 anos, sede do primeiro e único show de Nara Leão em que teve o prazer de estar. Grávida, à época de seu primogênito, reconstrói o cenário que fez da apresentação imbatível.

“Sempre gostei muito de MPB, Bossa Nova e surgiu essa possibilidade de ver a Nara cantando ao vivo com o Roberto Menescal. Me lembro exatamente de como eu estava vestida, de quem estava comigo. Foi um show único, agradável e intimista que cativou sem muitas alegorias”.

Habituados ao ordenado, foi na discoteca do La Bohemia que o desregrado veio de bom grado.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 17/11/2019)