No ducado do senhor José Cândido Moreira de Souza, a moeda era cunhada no princípio da reciprocidade; na ideia de que o primeiro passo para unificar um território é conhecer e satisfazer quem nele vive. E foi assim, sob a jurisdição do referido dirigente, que comprar na Ducal se tornou sinônimo de bem-estar.

Do latim dux, ou seja, daquele que chefia ou conduz, pode-se dizer que o título de duque foi transmitido a José Cândido por seu pai, então negociante de açúcar no Nordeste. Espirituoso e habilidoso no discurso, ele não demorou a também negociar, criar e a fazer das palavras peças centrais em seu jogo de vendas.

Diferente do concorrente e, com sua disposição para o setor de criação, era quem fazia o marketing acontecer dentro da empresa. Daí a formulação de ‘Ducal’, que por mais que fizesse jus à sensação de elevação do cliente ao título de duque, era referência à compra do paletó e da calça da loja, que dava direito a uma segunda peça, mais barata.

Junção das primeiras sílabas de duas calças, o negócio do ducado compreendia e atendia as necessidades de quem habitava o mesmo território que ele. Como descreve uma das filhas de ‘Zé Cândido’, a comerciante Maria Tereza Moreira de Souza, de 60 anos, foi sabendo que as calças se sujam mais do que os paletós que surgiu a ideia da promoção. 

“Era propaganda o tempo todo e foi essa a marca da loja. As pessoas falavam sobre ela o tempo todo. Na época em que o Brasil ganhou a Copa meu pai fez uma ação publicitária com o Pelé. E logo no comecinho quem fazia a propaganda era a Glória Menezes e o Tarcísio Meira, recém-contratados da Globo”. 

Mais elegante, econômica e versátil. Era como a propaganda protagonizada pelo casal descrevia a roupa da Ducal em 1968. Em outro comercial, desta vez de 1976, evidenciavam-se as liquidações mágicas oferecidas pela rede, em que, como apontava o ilusionista, o preço descia e desaparecia.

E ainda que, como num passe de mágica, a Ducal estivesse espalhada por todo o território nacional, a costureira Ineia Fernandes, de 57 anos, explica que para seu pai – o produtor rural natural de Paty de Alferes, Esmeraldo Fernandes, bastava uma só loja para tornar realidade o seu sonho de adquirir um dos ternos da rede e, munido dele, se sentir um lorde. 

“Meu pai era um simples fazendeiro, mas adorava usar ternos. Crescemos na roça e no dia 20 de janeiro de 1977, quando visitei Petrópolis pela primeira vez, ele comprou um terno para o casamento da filha de um grande amigo dele em que ele foi padrinho. Apesar de ser senhor da roça e semi-analfabeto, ele gostava de se vestir bem”.

E assim o fez: adquiriu a peça e, passada a festa, não cansava em se gabar com a família: “dizia que o terno mais bonito de lá era o dele, mais até do que o do noivo”. Dia de ouro para o fazendeiro, a data ficou também marcada na memória de Ineia que, acostumada a viver sem luz, telefone ou ônibus, enxergou Petrópolis como o centro do mundo.

“A família toda viajou para a cidade só pelo terno. Para mim, que fui criada no meio do mato, aquela loja era um luxo! Sempre ouvia falar nela pelo rádio, então conhecer a verdadeira Ducal foi um marco”. Em dia com os lançamentos, o empreendimento se caracterizava, ainda, por estar inteirado com o que queriam e diziam os clientes.

Esmeraldo Fernandes: lorde por um dia. Foto: arquivo pessoal Ineia

Chamado, na década de 1970, para gerenciar a filial de Petrópolis da rede, o ‘Fernando da Ducal’, pai do carioca Luiz Müller, se comprometeu a ela ‘dar um gás’ e a tratar o negócio como sendo seu, mesmo que isso significasse fazer entregas com o próprio carro, para não atrasar os prazos, e a chegar atrasado nas ceias de Natal.

Personalizado, o tratamento do senhor Fernando logo fez com que, na cidade, o comprar na Ducal proporcionasse aos clientes o bem-estar de que tanto se falava. “Era uma loja de redes, mas meu pai atendia como nas lojas pequenas da cidade. Ficou tão conhecido que passou a ser chamado de Fernando da Ducal”.

Melhor que isso, só dois disso

Arquivo pessoal Henrique Sloper – Bruno Avellar

Convicto de que um bom negócio é aquele que vende a marca, e não o produto, o publicitário visionário José Cândido não demorou a fazer a firma se multiplicar e se consolidar no Brasil. Tanto que, de uma, a loja – líder no segmento nacional de roupas dedicadas a homens e rapazes, se transformou em outras 120. 

E partindo da ideia de que para unificar o território era preciso basear a moeda no princípio da reciprocidade, não só ampliou a oferta de mercadorias na chamada Bemoreira Ducal – junção dos já existentes trajes com eletrodomésticos, como passou a investir também em promoções, tais quais as recordadas pelo motorista Ricardo José Carmo, de 61 anos.

“Você efetuava as compras e depois tinha um sorteio. Meu pai, Geraldo, ganhou, e não foi uma só vez não. Levou para casa uma enceradeira, um conjunto de panelas, ferro de passar roupa”. Peça-chave na vida de milhares de brasileiros, a Ducal era a escolha número um do comprador, fosse o desejo dele casar ou comprar uma bicicleta.

Equipada com um ciclomotor e capaz de chegar aos 60 quilômetros por hora, a grande ambição de Mauro Tapajoz, de 59 anos, era ter uma Garelli vermelha. Aspiração realizada graças a uma promoção oferecida pela Ducal que acabou por se tornar, para ele, símbolo de diversão e da admiração tida pelo pai. “Me lembra logo aquele tempo bom”. 

Do outro lado do Paraíso, por sua vez, foi na Ducal que a aposentada Tania Regina dos Santos Stumpf, de 65 anos, adquiriu todos os utensílios domésticos de que precisaria depois do casamento: desde os móveis da sala ao fogão e a geladeira. Há 43 anos casada, recorda a empolgação que foi encontrar, num só lugar, o novo capítulo de sua história.

“Tenho várias recordações, ainda que não os tenha mais. Tenho, inclusive, fotos de noiva em que apareço em frente à penteadeira, comprada no Ducal, e sentada no sofá, também de lá”. Padronizada, mas, ainda assim, personalizada, a Ducal fez e faz pensar que na busca pelo bem-estar a reciprocidade é a moeda de maior valor.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 10/11/2019)