Com um vasto leque de mercadorias, o cliente saía coberto, da cabeça aos pés, de aquisições e da certeza de que, ao mesmo tempo em que depositava dinheiro, depositava também confiança num dos principais magazines que priorizava a manutenção das relações. Na Casa Cury, o carinho se fazia caminho para a qualidade e a fidelidade.

Já dizia o slogan: ‘Não procure, vá direto a Casa Cury’. E assim fazia a freguesia, das compras triviais às mais especiais. O marceneiro/carpinteiro aposentado Wilson Montes da Silva, de 68 anos, relembra a compra de seu enxoval de casamento na loja, o que inclui o primeiro fogão ao lado da esposa Maria de Lourdes, com quem está casado há quase 48 anos.

“Nossa compra mais expressiva foi essa do fogão mesmo. Um daqueles Alfa azul, partindo para um modernismo. Eu não era nem casado ainda. Comecei a comprar móveis, tudo mais, e o fogão eu adquiri lá. Guardei tudo na casa de um amigo que mora perto da gente. Ela até viu antes do casamento, mas foi uma surpresa que eu fiz”. 

E por falar no companheirismo da loja sempre que se dava um grande passo, a aposentada Laurici Matias Fritz, de 74 anos, explica que se a Casa Cury estava presente no dia a dia da família, no dia do casamento não poderia ser diferente. A união pode até não ter ido para frente, mas se tem algo que permanece daquele período é a gratidão pela família Cury.

“Minha já comprava as roupas da gente lá, então quando me casei ela mandou fazer meu vestido, que era bem justinho, com decote canoa, manga comprida, renda e babado de voal. Ela era freguesa assídua do senhor Abdalla. Sei que quando pagava a última prestação ele dizia: escolhe as coisas, Araci, faz outro crediário. Nunca deixava minha mãe sair sem fazer um crediário”. 

Também cliente especial dos crediários da Casa Cury foi a avó do desenhista Paulo Fernando Bastos, de 65 anos, o Pulguinha. Segundo ele, as recordações de quando a acompanhou às compras são algumas das principais reminiscências do tempo desfrutado ao lado daquela que o criou e tanto ensinou.

“É o tipo de lembrança que me leva para um tempo muito importante para mim porque minha avó me faz muita falta. É uma das boas memórias que tenho das coisas que fazíamos juntos. Me lembro deles dizendo que há mais de 25 anos ela comprava lá. Me lembro da loja como se fosse hoje. Era o tipo de comerciante que não se vê hoje. Pessoas muito especiais. Coisa rara mesmo”.

Diferentes gerações, mesmos padrões 

Arquivo pessoal Ricardo Cury – Bruno Avellar

Fundada pelo senhor Abdalla, a Casa Cury teve diferentes endereços – o principal deles na Rua Barão de Teffé – e gerações a frente do negócio. O aposentado Ricardo Cury, de 76 anos, recorda o período em que acompanhou de perto o empreendimento do pai, mais precisamente dos oito anos de idade ao ano de 1999.

“A loja foi fundada há uns 68 anos pelo meu pai quando eu ainda era criança, na altura do número 321, ali ao lado da antiga Casa Reis. Ele veio do Líbano, foi para o interior do Rio, Teresópolis e chegou a Petrópolis, onde conheceu e se casou com minha mãe – que também era libanesa – e aqui fez família. Somos cinco irmãos: Ricardo, Roberto, Alfredo, Rogério e Sônia”.

Cativante, o contato com a clientela na Casa Cury se mostrava estimulante. Ricardo explica que não havia sensação melhor do que estar atrás do balcão e ser elogiado pelo que fazia. Daí o combustível para investir e expandir a linha de produtos ofertados pela casa que, independente da geração, mantinha o padrão.

Tendo trabalhado com o que amou, ao lado de quem amou, pode-se dizer que Ricardo firmou uma aliança para lá de bem sucedida com a aposentada Ana Maria Cury, de 66 anos. Juntos há 46 anos, os dois se mostraram parceiros no amor, no trabalho e na vida, onde cresceram, empreenderam e perpetuaram o carinho pelo qual a Casa Cury se tornou tão conhecida.

“Foi uma família unida que cresceu junto. Nos conhecemos quando comecei a trabalhar próximo à Casa Cury e uma amiga me levou para pagar o crediário lá. Ter tido a oportunidade de trabalhar com o Ricardo foi um aprendizado de vida. Tivemos funcionários excelentes e as pessoas depositavam confiança no nosso trabalho, então sentimos que criamos e plantamos algo de bom na cidade”.

Ricardo e Ana Maria Cury. Foto: Arquivo pessoal Ana Maria Cury

Como Ana Maria bem aponta, a via era mão de dupla. Ao mesmo tempo em que os funcionários prezavam pelos clientes, havia uma preocupação dos fregueses em retribuir a consideração com que eram tratados. Não raras eram as vezes em que, depois da compra do enxoval das crianças, os pequenos eram levados para conhecer a equipe.  

E quando o assunto é a integração do corpo de funcionários, a aposentada Christina Pires, de 60 anos, faz questão de dizer: “era uma relação muito boa e cordial”. Conclusão a que chegou não por ter trabalhado na Casa, mas pela experiência transmitida por seu pai e ex-gerente do estabelecimento, Gastão Marques Carvalho de Oliveira Neto.

“Ele trabalhou com a família Cury por quase que uma vida inteira. Muito mais de 30 anos, então nasci conhecendo praticamente todos eles, que são referência para a minha própria família. Mesmo com discrição do meu pai a gente sentia a confiança, a amizade e o respeito entre eles. Não precisava falar, a gente sentia, e não tem dinheiro e nem salário no mundo que pague isso”.

Perceptíveis, os laços se apoderaram do ambiente e fizeram dele destino certo de quem depositou confiança na segurança proporcionada pela Casa Cury em tempos de mudança.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 14/07/2019)