Petrópolis Sob Lentes

Um blog sobre lentes dotadas de memória e história

Casa Gelli: da fábrica à loja, marcando gerações

A produção era de móveis, mas, ao fim do dia, da fábrica saíam sonhos. Os produtos traduziam as ambições de cada um e, somados ao charmoso interior da Casa Gelli, a simples possibilidade de tê-los era de fazer o olho brilhar. Com as mãos nos tapetes, os olhos nas louças e o coração nas vitrines e brinquedos, a realidade vestia-se de fantasia.

Arquivo pessoal Mário Gelli – Bruno Avellar

O bom gosto e a qualidade são pontos-chave quando o assunto é a Casa Gelli. Considerada a primeira fábrica de móveis de Petrópolis, a firma coleciona prêmios e, acima de tudo, as aprovações dos clientes. A aposentada Maria Pessoa de Souza, de 67 anos, diz que não pretende se desfazer dos móveis que adquiriu há 52 anos.

“Me lembro bem de ter ganho um quarto novo aos 15 anos com móveis comprados na Gelli. Morei em Brasília, São Paulo, Salvador, voltei para Petrópolis e os tenho comigo. Não tenho coragem de me desfazer deles, que correram atrás de mim quase que a vida inteira e estiveram comigo em todas as mudanças”.

Ela lembra ainda que sua cama foi também parte da infância da filha, hoje aos 44 anos, e da neta, de 12. E assim como Maria, quem jamais se esqueceu da loja é a autônoma Sabrina Djalma, que teve o privilégio de ganhar, no que considera ter sido o melhor Natal, um presente comprado no Magazine Gelli.

“Minha madrinha me levou lá quando eu tinha uns 7 ou 8 anos. Ela conta que estava disposta a me dar uma bicicleta, mas, na época, escolhi o Fofão. Depois disso passei a ir muito na Casa Gelli para ficar admirando aquele mundo de brinquedos. Lembro que eles desciam por um elevador. Parecia que você estava entrando num mundo muito particular seu, numa casa de fantasias”, afirma a petropolitana de 36 anos.

O segundo andar do prédio era dedicado à criançada: com autoramas, bicicletas, escorregas e muitas cores, era lá que os pequenos sonhavam acordados. Além dos brinquedos, outro diferencial eram os caprichados embrulhos em papel vermelho. Rossana Gelli, de 59 anos, relembra os dias em que frequentou o estabelecimento. Mais precisamente, desde nascer até o negócio fechar.

“Meu pai, Gilberto Gelli, foi diretor comercial e trabalhou lá por mais de 50 anos. No Natal, eram feitos concursos e tinha sempre um Papai Noel para receber as crianças. A cidade também esperava pela feira de agosto, em que eram feitas muitas promoções. As pessoas faziam fila para comprar”.

Fachada adentro

Arquivo pessoal Rossana Gelli – Alexandre Carius

Quem atravessava a entrada da Casa, se deparava com luxuosos lustres, belas colunas nas laterais, um elegante piso quadriculado e mercadorias que iam desde louças e talheres a eletrodomésticos e cristais. Rossana se refere àqueles tempos como uma ‘outra época’ e, de fato, as tradições eram outras. Diariamente, às seis da tarde, era tocada a Ave Maria. Além disso, sempre que a loja abria e nos intervalos de almoço era tocada uma marchinha.

Ela cita ainda as inesquecíveis vitrines feitas por Ricardo Gelli: diversão dos veranistas que passeavam pelo Centro. “As duas vitrines eram sempre muito bem feitas. No Natal então, costumava ter o concurso da vitrine mais bonita e a Casa Gelli sempre ganhava, encantava as pessoas”.

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Após o falecimento do vitrinista que se tornou conhecido pelo trenzinho elétrico em seus cenários natalinos, quem ocupou seu posto por 15 anos foi a artesã, de 56 anos, Renata Gelli de Araújo Moreira.

“Eram oito metros de vitrine, uma das maiores de Petrópolis. Era um desafio, mas eu amava e contava os dias para ir lá fazer. Meu pai, arquiteto, me ensinou a olhar as vitrines sem graça e as vitrines com arte. Uma vez, fui na casa de uma cliente e, a pedido dela, arrumei os lençóis e edredom do mesmo jeito que eu havia feito na vitrine”.

Como toda grande história, a da Casa Gelli teve um belo começo. Quem a relembra é o senhor Mário Felippe de Carvalho Gelli, de 89 anos. Ele é neto do visionário Felippo Gelli que, vindo da Itália, fundou na Rua Doutor Porciúncula, em 1897, a marcenaria que deu origem ao empreendimento.

Museu Imperial/Ibram/MinC

“Meu avô já trabalhava com madeira: produzia aqueles tonéis para colocar enguia, peixe muito comum na cidade de Commacchio, de onde ele veio. A Gelli funcionou por muito tempo onde é hoje o Edifício Profissional e a produção já operou até na Barão do Rio Branco, na atual sede do Corpo de Bombeiros. No Rio, a Gelli chegou a ter 13 lojas: na Avenida Brasil, Copacabana, Tijuca, Méier; e tinha filiais em vários lugares, como Belo Horizonte”.

Arquivo pessoal Mário Gelli – Bruno Avellar

Pioneira nos móveis planejados com a linha ‘Bem Bolado Gelli’ e reconhecida nacionalmente, foi a ela que o senhor Mário se dedicou desde menino. “Nunca fiz outra coisa a não ser dedicar toda a minha vida à Gelli. Comecei a trabalhar na loja com, praticamente, 13 anos. Sinto saudades de tudo. Fui desenhista de móveis e também diretor industrial da empresa”.

O carro-chefe da fábrica era a poltrona Gelli Junior, produzida em alta escala. Segundo o aposentado, eram feitas 200 por semana, sem falhar. Hoje ele se dedica à pintura e, assim como quem a viu funcionar, nutre um carinho pela Casa Gelli, lar de quem sonhou e, certamente, já se emocionou ao relembrar.

(Matéria publicada no jornal Tribuna de Petrópolis em 15/07/2018)

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  1. Solimar Pinto Pereira

    Comprei no apagar das luzes na gelli um modulado belíssimo quarto de solteiro, armário com cama embutida bege com detalhe em azul, de altíssima qualidade. Adoraria ter outra vez. Sol

  2. Dóris Meirelles do Valle

    Minha mãe era irmã de Nair casada com Aldo Gelli todas os anos a querida tia Nair me presentiava com coisas da Casa Gelli…hoje ainda tenho móveis de quarto e sala ,prateleira compradas nesta grande loja … coisa boa dura pra sempre …foi uma grande perda pra nossa cidade …loja como essa nunca mais …que saudade quando entro na galeria Gelli e não vejo mais a grande Loja.

  3. Carlos

    Trabalhei fábrica da super Gelli na Av Brasil eu tinha 18 anos foi a melhor empresa que já trabalhei, Sr Renato Gelli uma pessoa muito simples, sinto saudade da quela época

  4. Romildes ferreira

    Trabalhei na casa Gelli RJ 10 anos tenho boas lembranças saldades

  5. Tatiana

    Eu morava no prédio que ficava em cima da Casa Gelli na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, Rio de Janeiro. No quarto da minha mãe tinha um sofá lindíssimo da Gelli, de madeira com almofadas coloridas. Que saudade!!!!

  6. Paulo Ferreira De Souza

    Meu nome é Paulo Ferreira de Souza.
    Trabalhei 16 anos na Gelli rj.
    Comecei na Tijuca desde 1972 admitido pelo Sr. Calina gerente de vendas na época.
    Tudo que sou hoje todo meu aprendizado devo a família Gelli principalmente ao grande Renato Gelli.
    Tenho um filho chamado Felippe em homenagem ao Fundador Felipo Gelli.
    Fui único funcionário que após sair da empresa para trabalhar em SP ao voltar fui readmitido ,fato esse único na história da empresa em 100 anos.
    Recebi das mãos do Sr Paulo Melo gerente de vendas na época uma medalha pelo fato, o mesmo soube através do Roberto Gelli que eu era um excelente vendedor então ele me contratou imediatamente.
    Meu Deus quantas saudades.
    Hoje tenho uma pequena indústria de móveis planejados tendo minha filha Carolina como ARQUITETA da empresa.
    Só uma palavra.

    Obrigado .

    Obs. Minha empresa chama-se DellAbitareMóveis.

  7. Luiz Cláudio Macedo de Oliveira

    GELLI Grande empresa!

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